E FUI CONVIDADO PARA SER PADRE...
NOTA: Este é o escrito nº.67.
Se deseja ver mais, já vai em 92, em 2008, e pode escolher à direita, o mês e o ano.
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A lista geral de artigos, está em Julho de 2007.
Estava eu em 1949, internando num Sanatório, mas já em vias de cura, quando um grande amigo que também lá foi parar por esta altura, doente, de nome Fernando Gomes da Costa e que era mais ou menos da minha idade. Ele era duma família muito respeitada na Anadia, os "Irmãos Unidos" que forneciam Champanhe para todo o lado e tinham enormes adegas recheadas de pipas de belos vinhos e espumantes. Assim, quando já estávamos ambos benzinho, ele me convidou para ir fazer umas férias em sua casa e assim eu fui conhecer a sua excelente e simpática família e conhecer a sua terra, a Anadia.
Aquilo era realmente muito bonito e ele, sabendo que eu nunca tinha ido de férias a lado algum, presenteou-me com viagens de passeio a todas as zonas turísticas daquela fabulosa zona, com as suas termas, o palácio do Buçaco, com os seus lindíssmos jardins, as Termas, eu sei lá que mais, além de Leitão da Bairrada e tudo muito bem regado com os belos vinhos da região.
No Caramulo, ele havia construído um minúsculo emissor com as bobines enroladas em dois frascos de Estreptomicina, e lá íamos conversando muitos horas sobre a electrónica que nos estava a apaixonar, embora clandestinamente a usar o extremo das Ondas médias.
Muitos anos mais tarde, vim a saber que ele estava como Engenheiro Director da Estação de televisão da RTP, do Trevim, onde se manteve até atingir a sua reforma. Que belo amigo eu havia de ter, e como lhe estou grato pelo carinho que me dispensou e muito em especial a sua simpática mãe e pai !
Mas certo dia, na Anadia, ele foi convidado para assistir a um casamento de pessoa amiga, e desejou levar-me, embora sabendo que eu não conheceria ninguém da festa e talvez fosse uma estopada, mas mesmo assim, eu lá fui, até porque não tinha outra escolha...
Quando chegou a boda, a malta entrou toda de rompante pela enorme sala e eu fui ficando para trás, a ver se no fim, ainda haveria algum lugar para me assentar, mas fiquei radiante ao ver que na ponta dum "T", estava um padre muito novo, e muito simpático, talvez com mais uns 4 ou 5 anos do que eu, e até tinha assistido ao casamento, e tinha lugar vago a seu lado.
"Ora aqui estou eu nas minhas 7 quintas ", pensei eu, porque sempre me havia entendido com os padres que sempre me haviam parecido pessoas respeitáveis, boas conversadoras, bons ouvintes, bons faladores, inteligentes e até pacientes, mesmo que em qualquer altura da conversa, eu pudesse levar algum sermãozinho...
Mas aquilo não podia ser melhor ! A pouco e pouco, ele se interessou pela minha vida e veio a saber que eu estava num sanatório, embora já sem perigo de contágio e a conversa se animou imenso ! Nunca mais prestámos qualquer atenção ao barulho e altas conversas que se estavam a ouvir pela sala e ali estávamos muito entretidos os dois, como bons amigos de há muitos anos.
Foi por esta altura, no meio duma cantoria que encheu a sala, que me lembrei de meu pai, com quem talvez eu me parecesse e que, quando eu tinha 10 anos, me fazia cantar só para ele...aquela linda canção de Coimbra, chamada SAMARITANA, muito em voga naquela época, e que muitas vezes tive de cantar, para fazer as pausas necessárias e prolongadas, até que ele ficasse satisfeito. Eu sabia lá quem eram as Samaritanas, música muito admirada na época e cantada magistralmente por um jovem Dr. de Coimbra, Edmundo Bettencourt.
Lá em nossa casa, nos Ginetes, em S.Miguel, Açores, eu tinha 10 anos, mas todos diziam que tinha uma voz muita afinadinha... Só que, quando meu pai me pedia para eu cantar a Samaritana, toda a minha família abalava, sem eu entender o porquê... mas bastava-me cantar para meu exigente pai, já ficava satisfeito.
Dos amores do redentor
não reza a história sagrada
mas diz uma lenda encantada
que o bom Jesus sofreu de amor.
Sofreu consigo e calou
sua paixão divinal
assim como qualquer mortal
um dia de amor palpitou.
Samaritana plebeia de Sical
Alguém espreitando te viu Jesus beijar
De tarde quando foste encontrá-lo só
Morto de sede junto à fonte de Jacob.
E tu risonha acolheste
o beijo que te encantou
Serena, empalidesceste
e Jusus Cristo corou.
Corou por ver quanta luz
irradiava da tua fronte
quando disseste ó bom Jesus
'Que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte'
Só muito mais tarde é que vim a prestar atenção à letra e entendi o porquê da minha mãe e avó, profundamente religiosas, fugirem do pé de mim, lá para bem longe, e levando com elas as minhas irmãs, também muito religiosas, para que ninguém conseguisse entender a letra da canção...
Na verdade, eu nunca havia sido muito católico, tal como meu pai, e até embirrava bastante com os enterros e com tudo quanto falasse de mortos. Para mim, só a vida contava e a amava desesperadamente.
Também doente, nessa época, no sanatório onde tive de estar 5 anos, o Sanatório Central, havia um médico muito novo e que tocava maravilhosamente guitarras de Coimbra, e se chamava ( e chama, se ainda estiver vivo) Amaro da Silva Rosa, que eu tentava acompanhar à viola, mesmo no quarto do sanatório, onde se reuniam vários doentes, ao serão. Eu era o mais novo. Outros eram médicos, pintores, caixeiros viajantes, funcionários bancários, técnicos dos CTT, etc. Era uma claque de malta muito vivida, galhofeira e de trato muito fino.
Mas a certa altura do referido casamento, no meio dumas garfadas de saboroso leitão assado e belas bebidas, ainda disse ao Sr.Prior que não entendia aquela história dos jejuns e de não se poder comer carne à sextas feiras, e dos pecados mortais, e da bula,...mas ele ouviu sempre com um sorriso estampado no rosto. O padre era mesmo simpático ! Tenho pena de já não me lembrar do seu nome...que excelente pessoa !
E seguia eu com as minhas dúvidas quanto às confissões e aos Padre-Nossos, e aos castigos divinos, e ao Inferno e ao Céu e aos pecados mortais, etc. quando a certa altura ele me pergunta:
"Porque não vem estudar para padre ? "
Fiquei um tanto atónito, especialmente por ter estado a dizer que não acreditava em muitas coisas da religião e até estar do contra, que desejava fazer da minha vida muita coisa científica, casar, etc.
Aí, ele me disse: "Pois como padre, poderá ter isso tudo, à excepção de casar e ter filhos ".
"Tá a ver, Sr. padre", respondi eu de imediato: " Eu sinto imensa necessidade de liberdade e vivo sonhando em um dia ser casado e ter os meus filhos, para os ajudar a entender a vida e a procurarem saber os porquês de tudo o que nos rodeia ", respondi eu, e ainda acrescentando: "Mas mesmo assim, com tantas dúvidas quanto a tantos dogmas, ainda continua a convidar-me para estudar teologia ? Porquê ? ".
Aí o meu simpático companheiro, parou uns segundos enquanto tentava engolir mais um pedaço de leitão, talvez ainda mal triturado...e seguido dum golo de belo vinho, e respondeu-me:
"Pois é especialmente por o ter ouvido e saber o que pensa da religião, que lhe garanto, daria um bom padre, porque sabe pensar e exprimir-se com facilidade "...
Passados estes 58 anos, ainda penso naquele simpático padre que me disseram depois, que era Dr. em Teologia e Director dum Seminário em Leiria, se bem me lembro. Como eu gostaria de me voltar a encontrar com ele e podermos continuar aquela boa conversa na boda de Anadia... E oxalá que ainda seja vivo, embora certamente com alguns 85 ou 86 anos. Que Deus o proteja, assim como me tem protegido ! Mas se já faleceu, como eu já estou próximo do mesmo, talvez nos venhamos a encontrar um dia e continuar com as minhas caturrices... e ele sorridente, a ouvir-me...




















