2007/07/24

E FUI CONVIDADO PARA SER PADRE...

 NOTA: Este é o escrito nº.67.
Se deseja ver mais, já vai em 92, em 2008, e pode escolher à direita, o mês e o ano.
 Em caso de dificuldade, por favor mande   e-mail para   ct1dt@sapo.pt
 A lista geral de artigos, está em Julho de 2007.
 
 

Estava eu em 1949, internando num Sanatório, mas já em vias de cura, quando um grande amigo que também lá foi parar por esta altura, doente, de nome Fernando Gomes da Costa e que era mais ou menos da minha idade. Ele era duma família muito respeitada na Anadia, os "Irmãos Unidos" que forneciam Champanhe para todo o lado e tinham enormes adegas recheadas de pipas de belos vinhos e espumantes. Assim, quando já estávamos ambos benzinho, ele me convidou para ir fazer umas férias em sua casa e assim eu fui conhecer a sua excelente e simpática família e conhecer a sua terra, a Anadia.

Aquilo era realmente muito bonito e ele, sabendo que eu nunca tinha ido de férias a lado algum, presenteou-me com viagens de passeio a todas as zonas turísticas daquela fabulosa zona, com as suas termas, o palácio do Buçaco, com os seus lindíssmos jardins, as Termas, eu sei lá que mais, além de Leitão da Bairrada e tudo muito bem regado com os belos vinhos da região.

No Caramulo, ele havia construído um minúsculo emissor com as bobines enroladas em dois frascos de Estreptomicina, e lá íamos conversando muitos horas sobre a electrónica que nos estava a apaixonar, embora clandestinamente a usar o extremo das Ondas médias.

Muitos anos mais tarde, vim a saber que ele estava como Engenheiro Director da Estação de televisão da RTP, do Trevim, onde se manteve até atingir a sua reforma. Que belo amigo eu havia de ter, e como lhe estou grato pelo carinho que me dispensou e muito em especial a sua simpática mãe e pai !

Mas certo dia, na Anadia, ele foi convidado para assistir a um casamento de pessoa amiga, e desejou levar-me, embora sabendo que eu não conheceria ninguém da festa e talvez fosse uma estopada, mas mesmo assim, eu lá fui, até porque não tinha outra escolha...

Quando chegou a boda, a malta entrou toda de rompante pela enorme sala e eu fui ficando para trás, a ver se no fim, ainda haveria algum lugar para me assentar, mas fiquei radiante ao ver que na ponta dum "T", estava um padre muito novo, e muito simpático, talvez com mais uns 4 ou 5 anos do que eu, e até tinha assistido ao casamento, e tinha lugar vago a seu lado.

"Ora aqui estou eu nas minhas 7 quintas ", pensei eu, porque sempre me havia entendido com os padres que sempre me haviam parecido pessoas respeitáveis, boas conversadoras, bons ouvintes, bons faladores, inteligentes e até pacientes, mesmo que em qualquer altura da conversa, eu pudesse levar algum sermãozinho...

Mas aquilo não podia ser melhor ! A pouco e pouco, ele se interessou pela  minha vida e veio a saber que eu estava num sanatório, embora já sem perigo de contágio e a conversa se animou imenso ! Nunca mais prestámos qualquer atenção ao barulho e altas conversas que se estavam a ouvir pela sala e ali estávamos muito entretidos os dois, como bons amigos de há muitos anos.

Foi por esta altura, no meio duma cantoria que encheu a sala, que me lembrei de meu pai, com quem talvez eu me parecesse e que, quando eu tinha 10 anos, me fazia cantar só para ele...aquela linda canção de Coimbra, chamada SAMARITANA, muito em voga naquela época, e que muitas vezes tive de cantar, para fazer as pausas necessárias e prolongadas, até que ele ficasse satisfeito.  Eu sabia lá quem eram as Samaritanas, música muito admirada na época e cantada magistralmente por um jovem Dr. de Coimbra, Edmundo Bettencourt.

Lá em nossa casa, nos Ginetes, em S.Miguel, Açores, eu tinha 10 anos, mas todos diziam que tinha uma voz muita afinadinha... Só que, quando meu pai me pedia para eu cantar a Samaritana, toda a minha família abalava, sem eu entender o porquê... mas bastava-me cantar para meu exigente pai, já ficava satisfeito.

  E a letra era assim:


Dos amores do redentor

não reza a história sagrada

mas diz uma lenda encantada

que o bom Jesus sofreu de amor.

Sofreu consigo e calou

sua paixão divinal

assim como qualquer mortal

um dia de amor palpitou.

Samaritana plebeia de Sical

Alguém espreitando te viu Jesus beijar

De tarde quando foste encontrá-lo só

Morto de sede junto à fonte de Jacob.

E tu risonha acolheste

o beijo que te encantou

Serena, empalidesceste

e Jusus Cristo corou.

Corou por ver quanta luz

irradiava da tua fronte

quando disseste ó bom Jesus

'Que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte'


Só muito mais tarde é que vim a prestar atenção à letra e entendi o porquê da minha mãe e avó, profundamente religiosas, fugirem do pé de mim, lá para bem longe, e levando com elas as minhas irmãs, também muito religiosas, para que ninguém conseguisse entender a letra da canção...

Na verdade, eu nunca havia sido muito católico, tal como meu pai, e até embirrava bastante com os enterros e com tudo quanto falasse de mortos. Para mim, só a vida contava e a amava desesperadamente.


Também doente, nessa época, no sanatório onde tive de estar 5 anos, o Sanatório Central, havia um médico muito novo e que tocava maravilhosamente guitarras de Coimbra, e se chamava ( e chama, se ainda estiver vivo)  Amaro da Silva Rosa, que eu tentava acompanhar à viola, mesmo no quarto do sanatório, onde se reuniam vários doentes, ao serão. Eu era o mais novo. Outros eram médicos, pintores, caixeiros viajantes, funcionários bancários, técnicos dos CTT, etc. Era uma claque de malta muito vivida, galhofeira e de trato muito fino.
 

Mas a certa altura do referido casamento, no meio dumas garfadas de saboroso leitão assado e belas bebidas, ainda disse ao Sr.Prior que não entendia aquela história dos jejuns e de não se poder comer carne à sextas feiras, e dos pecados mortais, e da bula,...mas ele ouviu sempre com um sorriso estampado no rosto. O padre era mesmo simpático ! Tenho pena de já não me lembrar do seu nome...que excelente pessoa !

E seguia eu com as minhas dúvidas quanto às confissões e aos Padre-Nossos, e aos castigos divinos, e ao Inferno e ao Céu e aos pecados mortais, etc. quando a certa altura ele me pergunta:

"Porque não vem estudar para padre ? "

Fiquei um tanto atónito, especialmente por ter estado a dizer que não acreditava em muitas coisas da religião e até estar do contra, que desejava fazer da minha vida muita coisa científica, casar, etc.

Aí, ele me disse: "Pois como padre, poderá ter isso tudo, à excepção de casar e ter filhos ". 

"Tá a ver, Sr. padre", respondi eu de imediato: " Eu sinto imensa necessidade de liberdade e vivo sonhando em um dia ser casado e ter os meus filhos, para os ajudar a entender a vida e a procurarem saber os porquês de tudo o que nos rodeia ", respondi eu, e ainda acrescentando:  "Mas mesmo assim, com tantas dúvidas quanto a tantos dogmas, ainda continua a convidar-me para estudar teologia ?  Porquê ? ".

Aí o meu simpático companheiro, parou uns segundos enquanto tentava engolir mais um pedaço de leitão, talvez ainda mal triturado...e seguido dum golo de belo vinho, e respondeu-me:

"Pois é especialmente por o ter ouvido e saber o que pensa da religião, que lhe garanto, daria um bom padre, porque sabe pensar e exprimir-se com facilidade "...

Passados estes 58 anos, ainda penso naquele simpático padre que me disseram depois, que era Dr. em Teologia e Director dum Seminário em Leiria, se bem me lembro. Como eu gostaria de me voltar a encontrar com ele e podermos continuar aquela boa  conversa na boda de Anadia... E oxalá que ainda seja vivo, embora certamente com alguns 85 ou 86 anos. Que Deus o proteja, assim como me tem protegido ! Mas se já faleceu, como eu já estou próximo do mesmo, talvez nos venhamos a encontrar um dia e continuar com as minhas caturrices... e ele sorridente, a ouvir-me...

Escrito por Engenhocando em 19:48:41 | Link permanente | Comments (8) |

2008/07/04

NÃO ME DEIXES SOFRER....


     Cronica Nº. 92 de 4 de Julho de 2008
   
   e-mail  ct1dt@sapo.pt

   " NÃO ME DEIXES SOFRER ! "

  Desde que conheci a minha adorada esposa Alice Rosa dos Santos, há mais de 53 anos, que vim a saber que ela sofria de dores de cabeça mais ou menos intensas, de tempos a tempos, e a medicina nunca encontrava uma explicação, pelo que os analgésicos, era do que ela se enchia, nessas alturas...
  
  Depois tinha períodos de acalmia e às tantas umas cólicas tremendas de rins, tendo-se descoberto que ainda havia mais duas pedras num rim e que, provavelmente, mais cedo ou mais tarde, lhe iriam dar enorme sofrimento...
 Fora aquelas dores de cabeça, e o saber que mais dia, menos dia, iria sofrer de outra cólica de rins, até parecia uma pessoa muito saudável e alegre, sorrindo para toda a gente, duma forma muito franca e simpática.
 
 Depois do rocambolesco nascimento do nosso primeiro filho, que descrevi em "Deixa-me morrer...por favor", e quando já existia até o nosso segundo filho, a Antonieta, ela vem a ter a malvada e terrível cólica renal de que já estávamos à espera e de tanto sofrer, horas e horas, até dizia que preferia as dores dum parto, àquelas dores que nunca se sabia quando iriam terminar..., pois não havia analgésico que resultasse... e eu ali a vê-la penar, sem poder fazer mais nada, horas e horas, até ser expulsa aquela malvada pedrinha com o formato de um feijão, mas cheio de bicos, pelo que a sua passagem por tantos lados estreitos, a deixaram muito combalida e até ferida, rasgada toda por dentro ! !!!

 Mas ela era uma mulher de armas e embora sabendo que ainda havia outra pedra para sair, e nunca se saberia quando, lá foi vivendo normalmente e sempre muito activa, embora como boa dona de casa e mãe.
 Entretanto aparece o nosso terceiro e último filho, um ano depois, o Carlos, criança exageradamente activa e sempre desejando sair de casa, para o que sempre inventava forma de abrir a porta e desaparecer das nossas vistas, o que nos obrigava a andar sempre à sua procura... Aquilo é que o rapazinho sentia uma necessidade de liberdade ! Ele sabia que ia levar uns sopapos, mas não lhe servia de emenda...
 
 Mas havia uma coisa que continuava a aparecer de tempos a tempos, as tais dores violentas de cabeça, em que só queria ficar isolada e às escuras, horas e horas, e lá se ia tentando tratar à custa de mais analgésicos, pelo que a nossa gaveta dos medicamentos, já estava cheia deles, sempre à espera que fosse descoberto aquele que melhor efeito tivesse, porque segundo diziam os médicos, só ela saberia, pelas tentativas, descobrir os mais recomendados...
 Aquilo muito me intrigava, até porque e felizmente, até hoje, ainda não sei o que são dores de cabeça fortes, mas alguma coisa devia ela ter em qualquer outra parte do seu corpo e que pudesse despoletar aquelas tremendas dores...
 Também era verdade, que ela sempre tinha mostrado muita prisão de ventre, de dias e já sabia que certas comidas lhe originavam as dores de cabeça, como eram as sopas de feijão, talvez pelos gases que se geram...
 Mas um dia, ela me veio dizer que estava a perder sangue pelos intestinos, e aí entrei em órbita, pois embora sabendo que as mulheres têm os seus períodos de saúde com alguma hemorragia mensal, mas por ali é que eu não estava mesmo nada à espera e corri à sua médica que logo mandou fazer um clister opaco, manobra extremamente difícil, porque o bário não entrava, nem por nada ! Ou seja o que havia entrado, nem dava para fazer um raio-x suficientemente informativo.
 O próprio radiologista, estava espantado com o que estava a acontecer...
 Aquele aparecimento de algum sangue nas fezes, seria bem evidente de haver algo grave nos seus intestinos, e que, por mais laxantes que experimentasse, não resultavam, ou até pioravam. Tinha de haver outra explicação !
 
 Nos dias de hoje, ela já há muito que teria feito uma Ressonância Magnética, ou uma Ecografia, ou uma TAC, e talvez tivesse podido ser operada a tempo...
 
 Um dia fui visitar a sua médica, uma jovem, e ela, depois de ter estado ao telefone com um médico operador do Hospital de Vila Franca de Xira, não conseguiu esconder umas lágrimas que lhe saltaram dos olhos e, perante grande comoção, me entregou a papelada necessária para levar minha mulher, urgentemente ao Hospital de Vila Franca, e depois dela ser analisada, dolorosamente, por uma equipa médica, foi encaminhada de imediato para a sala de operações.

 Aquilo tinha de ser mesmo grave, fiquei eu a pensar, enquanto deambulava pelo hospital, à espera de noticias, até que um médico me vem dizer que ela tinha sido operada e "limpa" e que tinha de lá ficar.
 E eu a pensar naquele "limpa" ! Mas limpa de quê ?  Teriam retirado o tumor ?

 E como eu ali não podia fazer mais nada, saí do hospital e me assentei sozinho num banco de jardim, chorando como uma criança. pela primeira vez sozinho e completamente destroçado !  Nessa noite, ali sozinho na cama e na casa, eu nem consegui dormir nada e só esperando pelo dia seguinte e hora das visitas, para a voltar a ver, falar e beijar.
 Quando desejei saber mais algum pormenor, todos fugiam de me esclarecer correctamente, até que vim a saber que ela tinha um grande tumor no cólon transverso, e lhe haviam colocado um ânus artificial, aquele saco, no extremo superior do cólon ascendente, ali junto às suas costela, pendurado na barriga.

  Mas que pouca sorte a dela e da minha !!!
 
  Aquela hora da visita era torturante, porque vinham os amigos e amigas que rodeavam a sua cama, tudo num grande falatório, enquanto eu ali ficava ao lado, assentado numa cadeira, à espera de uns segundos para a ver.
  Foi logo nessa altura que desenhei uma caricatura dum homem triste a abandonado, sem sequer poder ver a esposa tão enferma.
  Mal sabia eu que essa caricatura , e mais 40 que se seguiram, havia sido caçada por um enfermeiro e havia corrido a mostrar em todo o Hospital, até à sua Gerência, a ponto de se ter alterado profundamente a hora das visitas e que só poderia entrar uma pessoa de cada vez, e que quando saísse, entregaria a senha a uma outra...
 Nessas caricaturas, eu gozava com toda a gente, em especial com os médicos, pois havendo proibição de fumar dentro do hospital, quase todos fumavam...
  
  Depois de umas semanas de visitas, o médico-chefe, me disse que a poderia transportar para casa, porque Vila Franca estava em festa e havia demasiado barulho e confusão... e assim a trouxe, sendo informado do que teria de fazer para a substituição do saco, sua desinfecção e limpeza diária, porque nada mais se poderia fazer...

 Entretanto minha mulher já tinha visto outros doentes em estado terminal e me pediu simplesmente, " não me deixes sofrer"... como se eu, um pobre diabo de 28 anos, tivesse alguma coisa que pudesse fazer, para não a deixar sofrer...
 Felizmente que ela não estava a sofrer, nem tinha as tais terríveis dores de cabeça, pelo que eu me tive de habituar a toda a lide de casa, porque ela não queria ter por perto, mais ninguém, a não ser eu.
 Eu entendi aquele seu desejo, até porque se tinha de descobrir exageradamente e a isso não se desejava expor...
 Assim, se foi passando o tempo, com ela cada vez mais fraca, e a ter de a abandonar todos os dias, uns minutos, para ir buscar comida e fazer alguma para ela, tendo aprendido a fazer papas de Maizena, que era ainda do que mais ela apreciava, mas onde ela sempre encontrava uns grumos e me obrigava a ir fazer outras...
 Depois era o lavar de toda a roupa e ir passando a ferro, mesmo ali numa marquise a seu lado, enquanto ela, muito calada, ia apreciando e até um dia me disse:  "Já vejo que te estás a salvar sozinho."
 Ela nunca me disse que sabia do tumor que tinha, nem do medo de morrer por causa dele, só que não queria sofrer...
  Um médico amigo, Dr. Tomé, infelizmente já falecido, a quem perguntei o que estaria nas minhas mãos, para não a deixar sofrer, quando chegassem as dores...ele só me respondeu que lhe desse a injecção de Cocaina, quando ela pedisse, mas que não estranhasse, porque ela se iria habituar ao bem-estar por elas provocado e me iria estar sempre a pedí-la, mal acordasse e sentisse mal-estar...
   
 Eu já sabia dar injecções, desde miúdo, de tanto as ver meu avô dar, e enfiava as agulhas nas nádegas das bonecas das minhas irmãs, que até achavam graça ...Mas ir espetar a minha própria esposa, é que me doía e bem, fazendo o melhor para que ela nem as picadelas sentisse, sendo muito rápido a picar e muito lento a injectar, além de medir com muito cuidado, o sítio de dá-las, para não apanhar o nervo ciático.
 
 Como eu nada estava a fazer ao seu lado, enquanto ela dormia, resolvi agarrar uma câmara de TV e a coloquei num tripé, aos pés da sua cama e do quarto ao lado, eu podia ver se ela acordava e de mim precisasse.
 Mas ela deu por isso, porque mal se movia, eu logo aparecia e isso a levou a perguntar-me: "Como é que sabias que eu necessitava de fazer xixi ?" , e eu lhe fiz ver que estava sempre com o olho nela, pela televisão.
 Mas um dia, mais morto que vivo, deixei-me adormecer, mas algo havia acontecido, com um ruído estranho que havia ouvido e na TV, ela não estava lá !  Num salto, vou encontrá-la estatelada no chão, sem se poder mover, dizendo-me que só queria ir ao bacio, mas tinha ido parar ao chão...
 Com grande dificuldade, lá a consegui levar para o bacio e depois para a cama.
 Felizmente que nada mais aconteceu.
  
 Como ela gostava muito de se sentir lavada, penteada e perfumada, eu lá fazia o que ela me ia dizendo e um dia me disse: "O que seria de mim, sem ti...?"
  Mas já perto do seu fim, ela nem queria que fosse eu a dar-lhe o comer e protestava da minha boa vontade, sem se aperceber de que já nem conseguia acertar na sua boca e tudo caía na cama, o que me obrigava a ter de ir substituir toda a roupa suja.
 
 Passados poucos dias, e eram 3 da manhã, e eu estava ali ao seu lado a tentar dormir um pouco, porque ela queria mais uma injecção de duas em duas horas, mal acordava, quando eu notei que ela já não me conhecia nem a vista se movia, e parecia de vidro, e mal sentia o seu pulso.
 Seria que eu estaria a fazer-lhe uma eutanásia sem saber ?
 E ali fiquei assentado ao seu lado, a pensar que teria de dar a triste noticia aos meus filhos, que estavam longe, mas isso só lhes iria por em pânico, e de nada serviria, pois se ela já nem me reconhecia, ainda pior aos filhos.
 Assim aguardei até de manhã, para lhes telefonar e passado pouco tempo, ali estavam eles a verem o seu calmo apagamento sem um "ai". Eu até sentia uma certa "felicidade" de a ter ajudado a morrer sem sofrer.
 Eram 10 horas da manhã, quando o seu coração parou e começou a esfriar.
 Era o dia 27 de Novembro de 1991.
 Como o caixão não conseguia nem entrar nem sair do quarto para o corredor que estava em frente, o meu filho mais velho, num acto heróico, agarrou no cadáver da sua mãe e levou-o ao colo, até ao sítio onde se pudesse colocá-lo no caixão, a uns 15 metros de distância.
 
 Tenho pena se esta crónica fez sofrer um pouco o leitor amigo, mas talvez tenha compreendido que em todas as situações da vida, sempre há uma altura em que podemos mostrar o nosso grande amor por alguém.


  

  
Escrito por Engenhocando em 12:18:52 | Link permanente | Comments (1) |

2008/06/17

QUE BOM PODER RECORDAR.....pessoas interessantes !


    QUE BOM PODER RECORDAR...!

 Artigo Nº.91 de www.engenhocando.blog.com
 e-mail  ct1dt@sapo.pt
 Nota: Nomes dos artigos editados, em Julho de 2007

    Estava eu em Março de 2007, por isso, o ano passado, quando um amigo me vem informar de que havia um blog duma senhora portuguesa, em que ela falava de coisas interessantes sobre meu irmão Carlos Mar, de que tenho falado várias vezes neste blog, como em "Meu irmão me salvou a vida", o que me levou, de imediato, a ver de quem se tratava e fui abrir o seu blog de nome  http://paixaodossentidos.blogspot.com
    Na realidade, eu havia entrado num blog muito especial, muito diferente de todos os que já conhecia e onde viria a encontrar uma senhora de nome Ana Bela Ramon Navarro, que com 15 anos, havia entrado num pequeno grupo de jovens entusiastas pelas coisas do espaço, aquele imensa aventura dos astronautas, os satélites, os foguetões, a NASA, o nosso Mundo visto do espaço sideral, etc. quando ainda estava a estudar em Almada.
 
  
    A sua forma deliciosa de escrever e relatar, era emocionante !
    Realmente, lá estava um seu artigo intitulado "O ALBUM DE RECORTES", onde vim a saber do seu enorme entusiasmo pelas coisas científicas, tanto de meu gosto, e raro nas senhoras, e dedicava carinhosas palavras ao meu então assassinado irmão, em Angola, em Julho de 1976, Carlos Mar, no seu Observatório da Mulemba.
    Ela e o seu pequeno grupo de entusiastas, lembraram-se de pedir apoio a este meu irmão, e dele recebeu de imediato, correspondência com muitas explicações do que poderiam fazer em prol do desenvolvimento destes assuntos tão transcendentes, na época, e em especial para jovens, cheios de dificuldades financeiras e especialmente uma garota tão linda.

    Como ele gostava e tinha muita habilidade para desenhar, as suas cartas eram repletas de desenhos explicativos.
    Assim, além de o ter conhecido pessoalmente e o ouvido tocar piano, que ele adorava tocar de ouvido, ainda ficou a saborear as suas experiências no Observatório, e da forma como ele lá ia conseguindo manter aquilo tudo em funcionamento, usando materiais de sucata, como latas e latinhas de todos os feitios e tamanhos...velhas máquinas fotográficas e muito material de rádio, pistolas para pesca submarina...etc.etc.
    É provável que a Ana Ramon, tivesse até ficado "deslumbrada" com aqueles olhos azuis e tão fluente forma de falar de coisas tão sérias e complicadas para eles todos...

    Naquela época, nem se tinha ainda ouvido falar de Internet, nem blogs, nem nada...
    Só se ouvia falar de NASA, de foguetões, de satélites, de radiocomunicações, em que ele era exímio como radioamador com indicativo CR6CH, especialmente em transmissão de Morse...etc.etc.
    
    Mal sabia ela, de que esse Carlos Mar Bettencourt Faria, era o meu único irmão e só 3 anos mais velho do que eu...a única pessoa neste Mundo, que conviveu com ele, em garoto e, com a ajuda do nosso professor Primário, Sr.Santos, nos ajudou a entender o que era a rádio e as telecomunicações, que estavam a nascer.
    Assim, como ela tem lá o seu e-mail, eu lhe escrevi a agradecer as tão simpáticas palavras e os elogios que tinha feito a meu irmão e até enviar-lhe uma foto minha e falando do que eu tinha estado a fazer não só em miúdo, na companhia de meu irmão Carlos, mas também a minha vida mais ou menos rocambolesca que tenho descrito neste blog, imensas vezes...
    Como esta Ana não tem os "dedos enferrujados", logo iniciámos uma troca diária de correio que se tem prolongado até aos dias de hoje, em que ela, sempre muito engraçada e versátil, me vai descrevendo o seu dia a dia, numa enorme quinta que possui, lá para o Norte de Portugal, perto de Viseu, agora casada e feliz, já com filhos e netos.
    É curioso que tendo MSN, eu já a vi a dedilhar o seu teclado, num dia em que estava um seu neto a brincar no MSN e eu o chamei e ele me respondeu. Mas, como eram horas de almoçar, ainda vi a Ana pela WEBCAM e a dizer-lhe para parar com aquilo, para irem almoçar, mas lá falar para mim...é que nada ! Ela diz, perante os meus protestos, que prefere "falar pelos dedos"... Há aqui um mistério enorme para eu desvendar !!!

    Aquela vida no meio do campo, como não podia deixar de ser, a entusiasma profundamente, não só ao assistir ao nascimento de imensos animais, mas com tristeza, assistir à morte de alguns ou até a um incêndio pavoroso que lhe invadiu a propriedade e lhe destruiu imenso arvoredo e imensas árvores de fruto !
    Mas esta Ana não esmoreceu e conseguiu ir recuperando toda a área ardida, embora se veja aflita com a sua conservação e protecção, para não ter de assistir, novamente, à entrada de fogos.
    Ela quer saber os nomes de tudo e os porquês, mas logo de seguida, entra pela INTERNET a dentro, ou procura literatura apropriada, à procura de mais detalhes explicativos e quando o assunto lhe agrada, vem para o seu blog, explicar por onde andou e do que ficou a saber, dando origem a fabulosos escritos explicativos em minúcia.
 
  Ela aqui está, como é hoje !

  Nós rimos e brincamos com tudo o que nos vai acontecendo no dia a dia e umas vezes explica-me ela, noutras explico eu e assim vamos brincando com uma amizade que não pode ser melhor.
  
  Um dia, e relembrando um doce de figos que a minha falecida esposa fazia e era muito admirado, eu fui ver no livrinho de apontamentos da minha esposa, como aquilo era feito e enviei-lhe via e-mail.
  Pois como ela tinha lá alguns figos ainda, foi logo experimentar e descrever no seu blog, com fotografias das várias etapas, como tinha feito e no que tinha resultado, em 22 de Outubro do ano passado, a que deu o título jocoso mas muito amável, "Quando os homens da ciência, falam de compotas", onde tece muitas palavras de carinho, sobre a "fórmula" do doce de figo e, com belas fotos a acompanhar, da sequência dos preparativos. 
  Só falta agarrar um dos figos pelo seu pé, e meter na boca à dentada, ficando, pela certa, todo lambuzado, mas deliciado, como ela ficou !!! 
  Vive sempre rodeada de música de muitos estilos, ou cantarolando junto dos filhos e netas, ou manuseando as várias máquinas de que necessita para os trabalhos de campo, ou trocando as posições dos ovos na sua chocadeira, ainda consegue tempo para se dedicar ao seu blog, nem que seja até às tantas da madrugada... 

  Falar desta mulher, é realmente muito difícil, dada a sua versatilidade e tão depressa está a falar de cogumelos, como de flores exóticas, como de doenças nos animais, como doenças nas plantas, como passa para outros imensos assuntos, todos deliciosos de ler.
  Ana Ramon, é das pessoas mais interessantes que nestes meus 80 anos, vim a descobrir pela NET, embora muito só, porque o marido trabalha em Lisboa, mas sempre rodeada dos seus ferozes cães...não vá o diabo tecê-las !


    
   
Escrito por Engenhocando em 13:01:12 | Link permanente | Comments (1) |

2008/06/06

AMANHÃ JÁ NÃO TENS AVÔ...



    AMANHÃ JÁ NÃO TENS AVÔ
 
  Artigo Nº.90 de Junho 2008
 www.Engenhocando.blog.com  e-mail ct1dt@sapo.pt

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  Eu já sabia que aquele meu tão querido avô, não andava bem de saúde, há algum tempo e, nas suas cartas para o Continente, onde eu já estava a viver, ele já ia dizendo que estava a findar a sua estadia em S.Miguel, nos Açores, até porque já lá não estava a fazer nada, e só pensava em vir viver para Lisboa.
  A sua vida estava no fim, e a sua maior paixão, seria de poder vivê-la junto de nós, em Portugal.
  Assim ele me ia contando que já se havia desfeito do seu belo carrinho, a que ele chamava "as minhas pernas", e até iria vender a sua casa, aquela "casa-cor-de-rosa" de que tantas vezes falei neste meu blog !
  Aquela casa, onde tanta alegria tinha havido, com tanta gente feliz e o seu velho piano sempre a tocar dia e noite, já nada lhe dizia, nem à minha avó, que também já havia perdido muito da sua intensa habilidade para o tocar.
  Já não se ouvia a flauta, nem o cavaquinho da Madeira, nem a sua viola, que ele tocava, nem aquela valsa que ele tão bem tocava ao piano.
  Tudo se estava a desmoronar !
  Um amigo ajudou-o a fazer os cálculos para ele saber o quanto valeria a sua casa, mas como o terreno tinha sido alugado, nem ela valia quase nada... Teria de abandonar S.Miguel, quase na miséria...
  Embora só tivesse 73 anos, já nem as suas visitas aos seus doentes, lhe interessavam muito e já nem tinha grande paciência para sair a pé, montanha acima, montanha abaixo, vendo que as pessoas já nem podiam pagar-lhe as avenças de que ele tanto necessitava para sobreviver.
  Como eu o amava e admirava !
 
   Dos seus 7 netos, toda a gente dizia que eu era o que mais me parecia com

ele, e isso me causava grande alegria, embora ele fosse fisicamente de aspecto muito robusto, mas elegante, sempre vestido a rigor e bem perfumado ! Eu tinha imenso orgulho naquela figura, e ele sentia isso !

 Quando tive direito a férias, resolvi voltar a S.Miguel, para matar saudades daqueles tão adoráveis velhotes, e poder estar mais algum tempo ao seu lado, mas fui encontrá-lo muito debilitado, incapaz de se mover sozinho e até eu o tinha de transportar ao WC, acompanhado dum criado que já lá estava há muitos anos, e o agarrava pelo outro lado, porque ele já não podia fazer nada sozinho, nem para se lavar e limpar !
  Que pena eu tive de o ver assim, naquela casa tão sombria e silenciosa, sem ouvir sequer a voz da minha avó, que muito calada, por ali andava tão preocupada com o que estava a assistir, pois se meu avô não melhorasse, não podia já pensar em vir viver para o Continente, para junto da sua amada filha, a minha mãe, os seus últimos dias de vida...
  Aquela minha linda avó, que sempre se mostrava sorridente para toda a gente, andava agora, com aspecto muito sombrio, embora sempre linda, com uma pele acetinada, embora já rondando os 80 anos !
   
      
 
   E só recordo de assistir às "fúrias" de meu avô, quando depois de ter levado uma hora a escrever à máquina algum documento oficial, e ela o lia muito cuidadosamente, lhe dizia: olha que Farmácia já não se escreve com "PH", nem Gaiacol como "guayacol", nem pele como "pelle", nem aplicação como "applicação"... e lá ia ele, praguejando acerca da "malvada"  revolução ortográfica... 

Mas eu queria saber o porquê do estado de saúde do meu avô e ela me contou que numa noite de inverno, ele havia sido chamado de urgência, à linda Lagoa das 7 Cidades e toda a viagem teria de ser feita a cavalo, cumieira acima e depois cumieira abaixo, mas a corta-mato, para ser mais rápido, em que o dono do cavalo o levava à mão, munido duma velha lanterna, por entre toda aquele luxuriante vegetação. Aquela noite estava realmente, imensamente escura ! Parecia de breu !

  Meu avô embora fosse um grande cavaleiro, porque durante muitos anos, fazia as suas visitas médicas a cavalo, ia assentado de lado sobre uma albarda, mas às tantas, ao dar-se uma guinada rápida para fugir a um obstáculo inesperado, meu avô cai de costas, com grande sofrimento, pois mal podia respirar...
  Mesmo assim, mas agora a pé, gemendo de dor, tossindo e cuspindo, lá foi andando cumieira abaixo, até à freguesia onde a doente o esperava, na sua grande aflição para ter um parto.
  Felizmente, para ela, mesmo com meu avô perante tão grande dificuldade para respirar, lá conseguiu por o bebé cá fora, são e salvo, mas já sem força para caminhar, só quando chegou o dia, arranjaram para transporte, uma carroça vulgar e sem comodidade alguma, além de que meu avô já tinha sentido o gosto terrível de sangue na boca e estava a cuspir sangue !  Algo de muito grave lhe teria acontecido e ele já pensava numa costela partida e que lhe estivesse a perfurar um pulmão.
  
 Aquela seria a sua última viagem àquele santuário da Natureza, aquela linda Lagoa das 7 Cidades, que ele havia visitado centenas de vezes, no cumprimento dos seus deveres clínicos.

    Mas o pior ainda estava para vir, pois começou a ter imensa falta de ar e gritava para

que lhe abrissem as janelas de par em par, para poder respirar melhor...estava com uma angina de peito !
  Minha avó logo foi ao telefone, telefonar ao médico mais próximo, um tal Dr. Pavão, que fazia clínica a uns 5 Km de distância, na Várzea, que passados poucos minutos, já estava a pedir a meu avô para arregaçar a manga do pijama para lhe dar uma injecção (?), mas eu nunca tinha visto uma coisa assim... parecia que meu avô tinha o braço cheio de minhocas ou cobras por baixo da pele que se ondulava toda, e gritava para o colega acabasse com aquilo depressa.

 Um minuto depois, realmente sossegava das crises de falta de ar e finalmente acalmava.
 Ele era muito bom médico, mas um terrível e pavoroso doente... Pelos vistos, nem podia ver uma agulha que o fosse picar !
 Por outro lado, este médico, muito mais novo do que ele, havia feito uma propaganda muito assanhada contra a medicina que meu avô sabia, e que ele é que tinha muitas "cadeiras de universidade", que meu avô não tinha.
  Aquilo era assim  naquele tempo; os médicos tinham de ter uma espécie de  "peão de brega" que ia pelas terras fazendo a sua propaganda e à caça de mais clientes, certamente dizendo mal dos outros...
  Uns anos antes, em que meu avô sempre brincalhão, viu uma carroça passar na rua, e carregada de cadeiras, me disse: Olha ali vão as "cadeiras" que o Dr. Pavão diz que tem a mais do que eu ...
  Mas agora, já não podia brincar mais, até porque estava nas suas mãos.

  Eu entretanto, levava todo o tempo deitado a seu lado, vestido, lendo-lhe as notícias dos jornais, iluminado por um bom candeeiro de acetilene.  Infelizmente, os 15 de férias a que eu tinha direito, estavam a acabar e já estava marcada a minha viagem de regresso, para o dia seguinte.
  Minha avó, como sempre muito exacta em tudo o que fazia, a ponto de estar de relógio na mão, para saber quando teria de nos dar um remédio crítico, de 6 em 6 horas, me veio lembrar de que eu me devia ir deitar, porque a camioneta que me levaria para Ponta Delgada, passava lá nos Ginetes, muito cedo.
  E foi aí que eu ouvi meu avô dizer:  amanhã, já não tens avô !
  Mas como ele estava muito calmo , eu lhe disse; nem pense nisso, agora que já está tão bonzinho... o beijei na mão e pedindo "a sua bênção",  me fui deitar.
  Era muito cedo, umas 6 da manhã, quando sinto minha avó chamar-me para me levantar , e dizendo até que o meu avô já tinha falecido!
  Eu nem queria acreditar no que estava a ouvir e num repente, estava a olhá-lo, deitado de lado com a sua cara deitada sobre a sua mão esquerda e a outra sobre o peito. Era a posição em que o tinha deixado na véspera.
  A sua expressão até era sorridente, parecendo que estaria a dormir, pelo que baixinho, para não o acordar, perguntei à minha avó: Mas ele está mesmo morto ? Parece tão feliz...
  Mas ela acenou-me com a cabeça que sim, embora eu não visse nem uma lágrima naqueles olhos...
  Até me pareceu que estivesse feliz por saber que ele não iria sofrer mais.
  Ela era realmente muito forte e encarava estes factos com absoluta normalidade.
  Realmente ele estava muito frio e me senti todo arrepiado e me afastei, pois havia que tomar o pequeno almoço e seguir viagem para a cidade, onde iria apanhar o navio Carvalho Araújo.
  E assim, nem assisti ao seu enterro.
  Segundo me contaram depois, teve um enterro miserável, com meia dúzia de pessoas que talvez ele tenha ajudado a por neste mundo, ou salvo a vida.
  Em contra-partida, a morte de meu pai, que tão pouca gente conhecia, uns 5 anos antes, havia levado aos Ginetes, centenas e centenas de pessoas, e até a banda de música Filarmónica Minerva, ia tocando a marcha fúnebre, aquela banda que meu avô havia fundado uns anos antes.
  
  Poucos meses depois, chegava a Lisboa a minha avó Leonor Ester Ferraz Bettencourt Leça, e que sempre muito lúcida, veio a falecer aos 85 anos, depois de um AVC seguido de coma, em que só se sabia que ainda estava viva, porque o rosário que tinha nas suas mãos, passava uma bolinha, de quando em quando, até que parou, por se ter "apagado".
  Eu não assisti, porque nessa altura, estava num sanatório do Caramulo, a brigar com a morte que me queria levar, aos 20 anos, e de que, graças a Deus me livrei, até hoje. 

  
 
Escrito por Engenhocando em 13:54:06 | Link permanente | Comments (1) |

2008/05/31

DEIXEM-ME MORRER...POR FAVOR


     Crónica Nº.89 de Junho 2008 

  e-mail   ct1dt@sapo.pt   para  www.engenhocando.blog.com
  (Nota: Se a legenda lateral aparecer sobreposta aos escritos,
            vá até ao fim do artigo e clique em "Link Permanente")
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  "DEIXEM-ME MORRER...POR FAVOR ! "

     Naquele dia 11 de Fevereiro de 1954 estava a cidade de Lisboa debaixo duma tremenda tempestade, com rajadas ciclónicas que faziam andar pelos ares toda a coisa fácil de levantar voo, ramos de árvores rodopiando por todos os lados, trapos, plásticos e papeis, raios e coriscos.
     A chuva era torrencial e, embora sendo 17 horas, parecia já quase noite !

  Pois foi neste dia que a minha esposa Alice Rosa, se "lembrou" de dar à luz o nosso primeiro filho !!!
  A D. Glória, a senhora parteira, com quem já havíamos falado, dizia que assistiria a mais este nascimento e, na casa da minha mãe em Lisboa, num bairro de nome Encarnação, lá estávamos à espera do grande acontecimento, ingenuamente pensando que aquilo iria ser trabalho de pouco tempo, mas as águas rebentaram e minha esposa me pediu para estar sempre perto dela, o que aliás nem era necessário dizer, pois era essa a minha intenção, dada a minha curiosidade pelos assuntos científicos e, muito em especial, por ir assistir ao nascimento duma criança.
  Mas infelizmente, o miúdo é que não estava nada voltado para esse evento...
 
  Umas semanas antes, a minha mãe já nos tinha levado a visitar um médico açoriano, seu amigo de infância, e que já havia assistido aos partos quase todos da minha mãe, menos ao meu, e ela depositava nele, a maior confiança, o Dr. Jacinto Vargas Moniz, médico obstetra, que fazia medicina em Lisboa.
  Eu ainda não o conhecia e fiquei um tanto surpreso quando ele se abraçou à minha mãe, num terno e carinhoso abraço de grande amizade...
  Minha mãe já nos havia mostrado umas fotografias da sua juventude em S. Miguel, nos Ginetes, onde se viam os quatro simpáticos irmãos Vargas Moniz, e ela, muito bonita, entre eles, todos muito novinhos, com 13 ou 14 anos.
  E foi até um deles, o Rogério Vargas Moniz, que como Engenheiro e Director Técnico no Arsenal do Alfeite, que tinha facilitado uns anos antes, a minha entrada e de meu irmão Carlos Mar, para a Administração desse Arsenal.
  Deste evento, eu o descrevi neste blog, no artigo "Meu amigo Eng. Rogério Vargas Moniz", em Março de 2007, artigo 52.

  Há uns 30 anos que eles não se viam e notava-se muito bem a amizade que tinham guardado, durante tantos anos.  Depois, muito carinhoso, foi auscultar a minha esposa e disse que lhe parecia tudo estar bem e que o miúdo estaria em boa posição para o nascimento, mas que era muito grande...
  Assim, ficámos muito descansados, embora ele referisse que havia toda a conveniência em que aquele parto fosse feito num hospital, não fosse haver qualquer ocorrência estranha, mas dada a nossa ignorância e a boa vontade da parteira, a minha esposa preferiu tê-lo em casa.

 E, enquanto a tempestade horrorosa se desenvolvia lá fora, rugindo furiosa, por todas as frinchas das portas e janelas,  as contracções da minha mulher, cada vez estavam mais aproximadas, e certamente que o bebé, estaria na rua, daí a pouco...
 Só que, embora já houvesse dilatação mais do que suficiente, em minha opinião... e a sua cabecinha mesmo ali à mão, ela "embirrava" em baixo e cada vez a minha esposa estava mais exausta ! Aquilo era sofrimento a mais para um ser humano !
 Nessa altura, eu agarrei o telefone para falar e pedir ajuda ao Dr. Vargas Moniz, mas infelizmente, ele havia saído e não se sabia a que horas viria...
 A minha alma estava positivamente desesperada, e não pude conter as lágrimas !
 Aí eu perguntei à parteira, porque não metia a sua mão por baixo para levantar uns centímetros aquela cabecinha, mas ela dizia que a Natureza é que sabia o melhor... mas eu fiquei muito indignado, porque me parecia muito óbvio... Seria como usar uma calçadeira para facilitar a entrada dum pé num sapato...
 Mas a parteira, embora aparentando uma certa calma, quando se viu desesperada, lá se resolveu dizer-me para ir chamar uma médica que lá vivia perto, a Doutora Capinha, e, debaixo daquela tempestade horrorosa, lá vou eu no meu velho carro, à sua procura, mas como ela estava ocupada com uma cliente, ainda demorou uns minutos a entrar para o meu carro e passado um minuto, já estava ao lado da minha esposa e o miúdo, acabado de nascer, na sua alcofa e, ainda de casacão de inverno vestido, ao ver que a placenta não se largava e ela estava a esvair-se em sangue, mesmo sem lavar as mãos, agarrou no cordão umbilical com uma, e com a outra, fez umas compressões violentas na barriga da minha esposa, até que lá saiu aquela treta toda...a placenta.
  Entretanto, como o miúdo já cá estava fora e muito tranquilo na sua alcofa, talvez esgotado pela força que tinha feito, para minha grande alegria, lá fui levar a Doutora a casa, embora ela me fosse dizendo que não a deixasse dormir, porque naquele estado, já não acordaria mais... e vigiasse o aparecimento da saída de mais sangue, dando-lhe de imediato uma injecção que já estava preparada, mas já era noite e bem noite, e ela nem estaria em condições de ser transportada para nenhum hospital.
  Como a parteira já estava exausta, também se foi embora, e ali fiquei sozinho a tentar manter a minha esposa acordada, conversando sobre o miúdo que era lindo e com muito cabelo...mas ela estava muito desejosa, era de deixar-se dormir, talvez para sempre !
  O Dr. Vargas Moniz, tinha razão, o miúdo era enorme e pesava 4,180 Kg !

 
  Eu ali estava, mais que atento, quando a ouço dizer qualquer coisa, muito baixinho e perguntei o que ela estaria a dizer, entendendo que ela dizia estar a sentir sair mais sangue, e logo aí eu saltei para uma cómoda onde estava o coaguleno e a seringa, mas aquilo havia que misturar um liquido dum frasco, com um pó existente num outro e chocalhar bem, operação que, embora nunca tivesse feito antes, me pareceu simples, mas eu só tinha experiência de dar injecções nas nádegas, e ali, teria de ser numa perna, e já nem sabendo se devia espetar a agulha, de cima para baixo ou de baixo para cima ou se a direito...  mas que atrapalhação, santo Deus !
  Felizmente que o miúdo se mantinha a dormir, mas eu estava a estranhar minha mulher sem o querer ver e nem abrir os olhos para me ver ou falar...Estava tão branca, que mais parecia um cadáver...
  Uns minutos depois, voltei a aperceber-me de que ela queria dizer qualquer coisa, e logo aproximei o ouvido da sua boca, para ouvir:
  Deixa-me morrer...por favor !!!!
  Como seria aquilo possível, teria eu ouvido bem ? Mas ela repetiu e aí lhe perguntei:
   Mas agora que acabámos de casar e temos um filho lindo... nem penses. Nem penses...
   E ainda lhe perguntei: E não tinhas pena de me deixar neste mundo, sozinho, com um filho nos braços ?
   Mas ela só respondeu: NÃO !
   Eu nem queria acreditar, até porque me sentia imensamente amargurado por me reconhecer como culpado daquele tão longo sofrimento e daquele seu estado de espírito tão estranho para mim...
   Ela queria morrer ali mesmo e sem pena nenhuma de tudo e de todos ! Devia estar a sentir-se perto do Céu !
   Já NADA a atraía na Terra, absolutamente nada !
   Aí senti-me tão culpado que até as lágrimas me saltaram, eu que a amava tanto ...
   " Não, de maneira nenhuma", eu a iria deixar "partir" sem fazer todos os meus esforços para a aguentar viva.

   Felizmente que a hemorragia havia parado, o miúdo continuava tranquilo, e só podia manter-me falando para não a deixar dormir...e ela sempre calada e de olhos fechados...

   Como seria possível uma pessoa pedir, e POR FAVOR, para a deixarem morrer ? E a mim, que tanto amo a vida ? A mim, que há tão poucos anos, tinha estado entre a vida e a morte, mas tinha conseguido sobreviver ?

   A tempestade lá fora, até me estava a ajudar, pois havia ruídos por todos os lados na casa...
   Eu já estava a ficar esgotado de forças, mas mesmo por cima da roupa da cama, me deitei muito junto dela, agarrando o seu pulso e sentir o seu débil coração que se mantinha batendo, cada vez melhor, com o passar dos minutos e ela despertando muito lentamente...
  "Vencemos, Alice, e tenho imenso orgulho em te ver despertar desse terrível pesadelo !"
  E ela, finalmente, sorriu para mim, abrindo os olhos e não ouvindo o miúdo chorar, talvez pensando até que ele tivesse morrido, mas eu perguntei-lhe:  Queres ver o miúdo? E ela disse SIM !
  Com muito jeitinho, para não o acordar, aproximei dela, a sua alcofa e lhe fui dizendo, por graça, mas com convicção: Depois de lhe dares banho, eu vou-lhe cortar este enorme cabelo, que lhe cai sobre os olhinhos... e ela esboçou um agradável sorriso, até porque sabia que eu estaria a falar verdade.
  No dia seguinte, muito cedo, apareceu a parteira e como a tempestade já havia acalmado, em todos os sentidos, eu assisti ao seu primeiro banho, vendo tudo muito bem, pois talvez tivesse de ser uma operação que tivesse de fazer depois.
  E enquanto a parteira segurava a cabeça do miúdo, eu cortei aquele cabelo a mais, que ele tinha. E assim, foi o seu primeiro corte de cabelo... já com minha esposa assentada na cama, a sorrir !
  Ainda hoje eu fico admirado do poder tremendo de recuperação duma mulher, após tal abalo físico !
  
 Mas aquela tremenda tempestade já havia acabado e tudo estava mais calmo.

  Três dias depois, lá iniciámos a viagem de volta para Benavente, a 50 Km de Lisboa e fomos para uma casinha antiga e solitária no meio do campo, em Vale de Estacas. O quarto de dormir ficava em cima, no primeiro andar, e a cozinha, a sala de jantar e o WC, em baixo.
  Um dia, passados uns 6 meses, estava eu a comer o meu pequeno almoço na cama, que sempre foi feito de sopas de café com leite, mas o míudo ali ao meu lado, é que não deixava de protestar..., embora tivesse mamado há pouco tempo. Eu estava a pensar que o leite da mãe não o satisfizesse e lembrei-me de lhe dar uma gotinha do café com leite, usando a ponta da minha colher, que ele adorou e logo me fez sinal de que queria mais, dando estalinhos com a língua, o que fui fazendo durante mais uns minutos, mas a minha esposa que estava a arranjar-se no lado de baixo da casa, é que estranhou o silêncio do miúdo e me gritou a perguntar o que é que eu tinha feito para calar o miúdo, ao que eu respondi que lhe tinha dado umas colheres do meu café com leite...
  "Oh homem, tu matas-me o miúdo, pois ele ainda só tem 6 meses... " , e subiu rapidamente ao primeiro andar, verificando como o bebé estava realmente todo contente ! Era verão e estava bastante calor.
  Assim, e vendo que não lhe havia feito mal, ele começou a beber leite de vaca enfraquecido e com café, tudo bem docinho, entremeado com mama, para não as deixar encaroçar, mas o que ele queria mesmo, era do pequeno almoço do papá, e passado pouco tempo, até já gostava dumas sopinhas, que engolia com facilidade.  
  
  Hoje, passados 55 anos, este bebé que se ficou a chamar Mário Portugal Santos e Leça Faria, tem sido sempre de boa saúde, embora tenha sofrido vários acidentes em desportos de alto risco, com fractura de costelas e tendões arrancados no ligamento do joelho esquerdo, etc. mas quem o vir, e nem souber, nem dará por isso, nos seus 54 anos de idade, visto aqui nesta foto de 1992 , entre a sua mãe e a minha.

    Mas depois deste susto tremendo, os outros dois meus filhos, Maria Antonieta

          e Carlos José, foram nascer no hospital da Santa Casa da Misericórdia de Benavente, e assistidos pelo Dr. Joaquim Cândido Mendes de Almeida, amigo de infância de minha mulher e, graças a Deus, ainda vivo, embora tenha tido há uns anos, um AVC um tanto violento, pelo que se encontra inactivo, embora lúcido.

  Infelizmente, um ano depois desta foto, minha esposa veio a falecer nos meus braços, com um malvado cancro de colon. E assim, já com cada filho para seu lado, todos casados, eu fiquei completamente só, a tentar viver feliz e contando neste blog, as minhas, às vezes, tristes recordações duma vida tão cheia de emoções, embora já rondando os 81 anos.


  
 
Escrito por Engenhocando em 09:55:21 | Link permanente | Comments (2) |

2008/05/23

O MEU FABULOSO IRMÃO CARLOS MAR


    Artigo Nº88 de Maio 2008

  Blog- www.engenhocando.blog.com
  e-mail   ct1dt@sapo.pt

  «Nota: Por defeito da Central do Blog, que ainda não
foi reparado, é provável que a legenda da propaganda,
 fique a sobrepor-se ao escrito inicial. Se isso acontecer,
vá até ao fim do artigo e clique em "Link Permanent ", já
podendo ver todo o escrito desde o seu início. Desculpe.»
                   -----------------------
 A LISTA GERAL DE ARTIGOS PUBLICADOS, ESTÁ EM
 JULHO-2007, art. Nº.72
  ==================================== 

  " O MEU FABULOSO IRMÃO CARLOS MAR"

    Quando este meu irmão nasceu, em 1924, foi uma alegria imensa para meu pai, em especial, porque da parte de minha mãe, que havia perdido um seu primeiro e grande amor, para salvar a sua mãe dum loucura que já se estava a manifestar, não havia a mesma alegria...
    Minha mãe era açoriana, como eu, de gema, e além de muito bonita, tocava piano maravilhosamente, no seu belo piano de cauda.

   Ela possuía uns normais olhos castanhos, como eu, mas ficou deslumbrada com

uns olhos azuis que meu irmão trazia, muito parecidos aos do meu pai e, como sempre viveu rodeada de água do Oceano Atlântico, logo lhe deu o nome de MAR, com o que meu pai concordou de imediato, e assim, ficando  como Carlos Mar Bettencourt Faria.
  Este miúdo, um tanto sisudo, aos 3 anos de idade, começou a mostrar certas virtudes pouco usuais nas crianças de tão tenra idade, mostrando-se muito interessado, mais pelas mecânicas complicadas, do que por carrinhos e bonecos...
  Meu pai que estava muito atento, logo lhe começou a oferecer Mécanos, brinquedo muito usado naquela época, com dezenas de peças metálicas furadas e milhentos parafusos, porcas, rodas e rodinhas, além das ferramentas miniatura, que as crianças podiam manejar facilmente.
  A sua memória para os sons, também espantava toda a gente, pois bastava ouvir o ruído de um motor de automóvel e o seu pai lhe dissesse a marca do veículo, logo ele, mesmo brincando no meio da sala, muito compenetrado com o que estava a fazer, sempre ia dizendo: ali vai um Ford...agora um Citroen...agora um  Fiat... e lá continuava a colocar as pecinhas do seu Mécano ...

 « A casa onde eles viviam, era um dos mais belos edifícios da Av.Almirante Reis, e que fazia esquina com a Rua da Palma e Largo do Intendente, em Lisboa.
  Por baixo, no rés-do-chão, era todo ocupado com a sua Empresa Nacional de Máquinas e foi por causa de uma venda para S.Miguel, duma destas máquinas, que ele foi dirigir a montagem, e que veio a conhecer minha mãe, por quem ficou, de imediato, loucamente apaixonado.
  Ele não era o que se pode chamar de "pessoa dotada de beleza física", mas aquela sua forma de falar à moda continental, tão diferente da açoriana, era um gosto ouvir, e se ele tinha coisas interessantes para contar !
  
   Embora nesta imagem, ele pareça que tinha os olhos escuros, eram verdes e o

seu olhar penetrante, até parecia que "faiscava" de hipnotismo, junto duma voz grave muito bem timbrada !
  Aquele homem tinha uma certa magia, pois falava de tudo com imensa facilidade, como se fosse um profissional de centenas de ofícios...
  Meu avô que, além de médico, também era muito curioso e tinha no sótão (lá se chama falsa) imensas ferramentas para muitas ocupações, como mecânica, carpintaria, caça, fotografia, electricidade, etc, logo se mostrou encantado com a fluída conversa daquele Sr.José Augusto Martins Faria.
  Ainda por cima, como adorava música séria e até sabia tocar violino, encantava toda a gente, menos minha mãe que vivia atormentada, por ter tido de apagar dos seus intentos, um amor de há alguns anos, por um oficial Madeirense, um tal Santos Pereira, mas que tinha uma irmã doente de loucura, doença que apavorava minha avó, muito em especial quando soube que uma irmã deste oficial, levava a vida torturada pela sua irmã louca, veio a dizer à minha avó, que estava desejosa daquele casamento, para ser minha mãe a aturar os desmandos daquela loucura.
  Esta terrível situação, veio a despoletar na minha avó, uma artista nata ao piano, professora de Francês e inglês, ataques de loucura, fechando-se num quarto e lá se pondo aos gritos e proferindo nomes que de feios, ninguém admitia que pudessem sair da boca duma senhora tão fina...
  Meu avô, vendo-a já no início da loucura, insistiu com minha mãe, para que parasse com aquele namoro, o que ela aceitou, com grande sacrifício, desfazendo o noivado com o oficial.

   «Entretanto naquela casa cor-de-rosa em S.Miguel, nos Açores e na freguesia dos Ginetes, que reportei neste blog, em Junho de 2007, o seu belo piano de cauda, lá ia mantendo minha mãe entretida, muitas vezes chorando a sua tristeza !

     Meu pai andava sempre de um lado para o outro, tanto em S.Miguel como no

Continente, levando consigo o seu belo carro que fazia transportar de barco.

  « O  grande amor da minha mãe, estava a fazer serviço militar na ilha Terceira e quase todos os fins de semana, ia visitar o seu amor a S.Miguel.
  Foi numa destas alturas, em que meu pai estava em S.Miguel, e nos Ginetes, a 25 Km de distância da cidade de Ponta Delgada, que ele se ofereceu para ir no seu carro, buscar o oficial, a Ponta Delgada, pois até estava interessado em saber quem seria aquele indivíduo que estava enamorado pela mulher por quem ele se havia enamorado também, mas vendo o carinho dele para com a minha mãe, retirou-se da sala e foi chorar de tristeza, debruçado sobre o volante do seu carro.
 Meu avô foi assim dar com ele e ficou muito impressionado, em especial quando meu pai, lavado em lágrimas, lhe disse:
  " Doutor, se por qualquer motivo, houvesse um desfazer daquele noivado, diga-me de imediato."

    Foi por esta altura, que se deu o caso da loucura já abordada anteriormente, e
mal meu pai soube da interrupção do noivado, de imediato apareceu, para grande alegria dos meus avós, e menos da minha mãe, como era óbvio, mas pedindo a sua mão para casamento quase imediato.
 
  «Mas, como estava a descrever anteriormente, meu irmão lá ia crescendo e cada vez mais entusiasmado pelas coisas científicas, além de adorar a música, onde desde miudo mostrou habilidade para tocar piano, mas sempre achou que era muito aborrecido o ter de estudar música e assim se ficou a tocar de ouvido e de tal maneira, que muitos depois, gostava muito de mostrar às visitas à sua casa em Angola , no seu Observatório da Mulemba, as suas habilidades a tocar piano.

 « Mas voltando uns anos atrás, num certo dia, quando ele tinha uns 3 anos, a minha mãe foi visitar uma senhora importante em Lisboa, levando meu irmão, e no meio da sala, estava uma mesa de luxo, carregada de pratas e coisas de muito valor.
  Meu irmão, havia-se metido debaixo da mesa e verificado com os seus minúsculos dedinhos, já muito hábeis no Mecano, que podia retirar uma data de parafusos dourados, muito pouco apertados e às tantas, foi despejá-los no colo da minha mãe, que ficou apavorada, por logo terem verificado que a mesa estava prestes a desmoronar-se...
  E, de imediato, olhando aqueles olhos azuis do meu irmão, lhe disse :
 "O menino vai colocar esses parafusos todos nos seus sítios e as porcas também...!"
  E ali ficaram as duas senhoras, apavoradas, sem saber o que dizer, mas a observar a habilidade e destreza com que meu irmão se voltou a meter debaixo da mesa e lá enfiou os parafusos e porcas que tinha conseguido retirar.

 Mas, quando ainda só tinha uns 9 anos, e eu 5, e estávamos na instrução Primária, ele pensou em construir um violino, de raiz !
 Na oficina do sótão de meu avô, havia muitos retalhos de madeira, e ele agarrou uma fita métrica, e foi fazer centenas de medidas do violino de meu pai, que estava sobre o piano.
  Mas aquilo tinha muito de complicado, porque ambos os tampos, eram côncavos/convexos, e não se podia prender na bancada de carpinteiro, pelo que eu estava sempre a ser chamado para segurar aquilo, enquanto ele, munido das goivas e outras ferramentas, lá ia escavando  aquelas tábuas.
  Mas mesmo que eu me queixasse de que já me doíam muito as mãos, ele insistia...
  Eu sou, por isso, a única pessoa no Mundo, que sabe deste e muitos outros acontecimentos. 
  E ele já sabia escolher as madeiras mais apropriadas para cada parte do seu violino, porque tinha tudo bem planificado.
  Até que finalmente, aquilo começou a ser experimentado, "miando" como gatos, o que muito intrigou meu pai, no andar debaixo, pois até julgou que o "malvado" garoto estivesse a mexer no seu adorado violino, mas como o foi encontrar em cima do piano, vai de subir ao sótão e ver o violino de meu irmão, pegando nele, mirou-o por todos os lados, afinou as cordas e colocando-o debaixo do queixo, tocou uma melodia !
 Aquilo era lindo demais ! Aquilo até tocava ! e os nossos olhos se encheram de lágrimas...
 
 «Nessa época, já toda a família sabia que meu pai, ainda no Continente, em Lisboa, após ter agarrado uma enorme carga de diabetes, veio a despoletar-se uma tuberculose e assim ele havia pedido ao meu avô, para o deixar morrer junto da sua amada esposa e filhos, nos Açores.
 Meu avô bem compreendeu a sua vontade, mas passou a andar muito preocupado com o possível contágio de qualquer um dos presentes, até porque meu pai não se mostrava muito preocupado em tossir para qualquer lado...como se estivesse somente constipado...
 Mas o médico, um tal Dr. Brilhante, quando meu avô lhe foi falar do tempo que ele teria de vida, ouviu que não podia durar mais do que uns 3 ou 4 meses.
 Assim, lá autorizou a sua ida para S.Miguel, onde ainda viveu 3 anos, morrendo com 45 anos.

    Meu irmão estava sempre a evoluir, e é nesta altura da grave doença de meu pai, que

nós recebemos de oferta do nosso professor de Instrução Primária, o Sr. Santos, um radio e pilhas, avariado, mas com a paciência de meu avô e a sua habilidade para as electricidades, nos pôs a limpar os contactos de todas as pilhas e lá começámos a ouvir milhares de coisas  a piar pi-pi-pi, e que viemos a saber ser telegrafia, e as ondas de rádio.
  Aquilo era demais interessante ! Meu irmão, melhor do que eu, e com o seu belo ouvido, de imediato aprendeu o código Morse e levava horas entretido a agarrar aquelas comunicações, pelo que desde muito cedo, com 13 anos, já dominava a telegrafia e muito da tecnologia electrónica, que "bebia" de todos os lados...

 

« Uns anos depois, chega a altura do Serviço Militar, que ele abominava, e vai parar ao Algarve, a Tavira, mas como tinha muita habilidade para o desenho, desmontou a sua arma toda, e desenhou-a, peça a peça, com vistas por todos os lados.
 Aquilo deu um brado enorme no quartel, e o Comandante o incumbido de desenhar todas as armas existentes, ficando assim como instrutor e responsável pelo arquivo dos desenhos.
  Mais uma vez, Carlos Mar se tinha evidenciado e tirado partido da sua habilidade, e ficando fora dos aborrecidos exercícios militares...
  Assim, ele havia feito o Serviço Militar, a brincar com coisas muito interessantes.

  «É desta época, o meu artigo Nº.85, "E meu irmão me salvou a vida", em Março de 2008.
  
 «Eu fui assim, durante toda a minha vida, uma pálida sombra deste rapaz que eu tanto admirava e amava, embora muitas vezes não estivéssemos de acordo.
  O seu enorme entusiasmo pela astrofisica, veio a pô-lo em constante contacto com a NASA, que foi visitar e até falar pessoalmente, com os astronautas.
  Ele foi uma honra para Portugal, onde nunca foi compreendido...
  Quando se soube que havia sido assassinado em Julho de 1976, sem nunca ter feito mal a ninguém, a minha vida se desmoronou !

 «Gostaria de deixar aqui o meu profundo agradecimento à minha irmã Maria Leonor, que me ajudou imenso com alguns factos que eu até desconhecia, mas ela havia guardado das conversas com a nossa mãe, Maria da Luz Ferraz Bettencourt Leça Faria.

  
 

  

  

  
 
 
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2008/05/07

O LINDO VESTIDO DE CETIM CASTANHO


      O VESTIDO DE CETIM CASTANHO
 
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   Crónica nº.87 - Maio 2008

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     Quando meu pai faleceu, em 1938, eu tinha somente 11 anos e ele 45.

  Minha mãe era muito nova, linda e esbelta, mas tinha sofrido um enorme desgosto no seu primeiro amor, com um oficial madeirense de nome Santos Pereira, que tinha uma irmã com loucura, e disso veio a ter conhecimento a minha avó, que tinha um horror imenso às pessoas loucas.
  Para piorar as coisas, minha avó teve conhecimento de que o namoro com o Santos Pereira, era mais devido a ele possuir uma pessoa que pudesse tratar e conviver com essa irmã louca, do que por amor.
  Minha avó começou a enlouquecer e de tal maneira que meu avô, sendo médico e verificando o estado de saúde da minha avó, que já andava às gargalhadas pela casa e dizer disparates...acabou por ir pedir carinhosamente à minha mãe, que desistisse daquele casamento, para não ficar com a sua mãe louca.
  Mas aquele primeiro amor da minha mãe, quase deu com ela em louca, mas não viu outra saída, que não fosse acabar mesmo com aquele namoro...

 Felizmente que, por casualidade, aparece em S. Miguel, um continental muito fino e delicado, que estava a montar em Ponta Delgada, umas máquinas da sua Empresa Nacional de Máquinas, de Lisboa e o dono das máquinas, desejou apresentar a este ilustre personagem, do melhor que houvesse em S.Miguel, e que era a minha família que vivia nos Ginetes, a 25 Km de distância, os meus avós e mãe, pessoas muito conhecidas na ilha pela sua virtuosidade a tocar piano.
  Minha mãe estava ainda muito longe de ter esquecido o seu primeiro amor dos 20 anos, mas estava com certa curiosidade de conhecer essa visita continental, um tal Martins Faria, um pouco mais velho do que ela, mas que era uma pessoa muito alegre e faladora, além de apreciar profundamente, a boa música.
  
 Assim, lá chegou aquela rara sumidade e que foi logo recebida por meu avô e avó, mas minha mãe embora curiosa, estava um tanto relutante em aparecer...
 Mas os meus avós é que simpatizaram muito com ele, até porque sabia muito de música, de automóveis, motores, mecânicas, de electricidade, tudo coisas que meu avô também gostava.

Até que chegou o momento de irem buscar a minha mãe e ela lá veio, muito envergonhada, conhecer o Sr. Faria, aquele personagem que tinha uma voz grave e muito bem timbrada com todo o sotaque continental, que tanto encanta dos açorianos, porque falam muito claro. Após poucos minutos de conversa, ele até disse que tocava violino e adorava o piano, pelo que estava desejoso de a ouvir.
 Minha mãe logo se assentou ao piano e tocou uma das suas melhores interpretações, que deixou o Sr. Faria completamente encantado... Ele nunca tinha ouvido tocar assim...aquilo era demais !
 Os meus avós estavam muito atentos aos acontecimentos, até porque desejavam ardentemente que minha mãe esquecesse aquele primeiro amor pelo oficial, e se deixasse aproximar deste jovem engenheiro de máquinas e tão conhecedor de música séria.
 Assim, ficou combinado que na sua próxima viagem a S. Miguel, ele viria acompanhado do seu violino e fariam os dois, uns belos concertos.
 
     Ele não era o que se pode chamar de homem bonito, mas o encanto da sua

conversa, acabou por tocar bem perto a minha mãe que, a pouco e pouco se deixou levar pela sua agradável companhia, aquele tão lindo sotaque continental e habilidade para contar anedotas finas, até porque sabendo tocar violino, estava mais perto dela, do que o antigo namorado que só sabia tocar campainhas de porta... e tinha lá em casa, a tal irmã enlouquecida...
  
  Assim, não foi difícil levar minha mãe a esquecer o antigo namoro e com tão enorme reportório musical, cada vez mais encantar o Sr. Faria, que a ouvia extasiado!
  Meu pai era uma pessoa muito alegre, mas um tanto reservada, só se abrindo para pessoas muito especiais, daquelas com quem dá gosto conviver e além disso, estava solteiro e livre.
 Daí ao seu casamento com a bela Maria da Luz, assim se chamava ela, foi um saltinho.
 Como meu pai teve de vir ao continente buscar mais máquinas, tratou logo dos papeis necessários para o casamento e na volta, teve de passar pela ilha da Madeira, onde foi procurar saber quem era o tal oficial e, ao encontrá-lo, logo lhe perguntou:

«O Sr. é que queria casar com a D. Maria da Luz Leça? ", ao que ele respondeu de imediato que sim.
 Meu pai sacou da algibeira os papeis para o casamento e lhe respondeu:
 «Pois fique a saber que quem vai casar com ela, sou eu e até já levo aqui a papelada para o casamento..:"
 O oficial nem queria acreditar, julgando que ele estivesse a brincar, e lá se despediram, embora deixando o oficial muito baralhado de ideias....

 Mas nos Açores, houve qualquer complicação com as máquinas e ele teve de voltar urgentemente ao Continente, ficando combinado que o casamento teria de ser feito em Lisboa e assim vieram meus avós, a acompanhar a filha para que se casasse em Lisboa. o que veio a acontecer por volta de 1923.
 Meu pai vivia por cima da Empresa Nacional de Máquinas, num prédio de esquina, imponente, e que dá para a rua da Palma e Av. Almirante Reis e Largo do Intendente.
 Portugal estava constantemente em revoluções militares que iam deitando por terra, todos os empreendimentos em que meu pai se metia...
  Entretanto adoece gravemente de diabetes e pulmões, indo acabar os seus dias nos Açores, em S. Miguel, na casa de meu avô, onde o vim a conhecer pessoalmente e assistir à sua morte.
 Desta vida, faço fé, no meu blog, em "Martins Faria, uma vida de sonhos ".

 9 meses depois, nasce o meu irmão Carlos Mar, depois a minha irmã Maria Manuela, mas por qualquer motivo que desconheço, eu fui nascer em S. Miguel, nos Ginetes, na "casa cor de rosa" de que tenho falado várias vezes no meu blog, mas os outros irmãos já no Continente, novamente.
  Esta conversa só serviu para que o meu leitor entendesse melhor o meu amor por S. Miguel.
  
  Mas a morte prematura de meu pai, deixou a família em sérias complicações financeiras e embora ainda tivesse tirado o curso do Magistério Primário, e trabalhado com ele durante uns anos, acabou por saltar para Lisboa, onde arranjou emprego interno na Santa Casa da Misericórdia e teve de "arrumar os filhos", da melhor maneira possível .
  É nesta altura que descrevo no meu blog, "Um açoriano abandonado em Lisboa", com enormes dificuldades financeiras, mas acabando por ir parar ao Arsenal do Alfeite, onde o seu Director Técnico, era o Eng. Vargas Moniz, amigo de infância da minha mãe, e de quem falei no meu blog, em " Meu amigo Eng. Rogério Vargas Moniz".
 Infelizmente, a precária alimentação e muito cansaço, acabou por me originar uma grave doença pulmonar e isso, conto no blog, em "Atacado pelos ácaros".
 Minha mãe moveu mundos e fundos, para que eu fosse para um sanatório dos instalados na Serra do Caramulo e como sempre, vestida de negro, se foi despedir de mim no comboio, na estação do Rossio, num apertado abraço, lavado em lágrimas, como eu já não via desde a morte de meu pai... provavelmente pensando que seria o seu último abraço dum filho, em vida, mas talvez devido à minha ignorância da importância da minha doença, até ia contente, pois o doloroso tratamento a que estava a ser sujeito em Lisboa, deveria ser menos mau no sanatório.

 Felizmente que a morte só me agarrou de raspão e uns anos depois, eu me via curado e de volta a casa, a Lisboa.
 Aí, cá estava eu sem emprego, mas como minha avó me tinha ensinado a falar, escrever e entender o inglês, um dia me entusiasmei em entrar no Consulado Americano e pedir para falar ao Sr. Cônsul que, após uma certa insistência minha, lá me atendeu e, como eu lhe expliquei que já havia construído a minha estação de radioamador, de que mostrei uma fotografia,  que gostaria de trabalhar para a RARET, ele me deu a morada da Sede da Empresa e lá fui eu, onde fui muito bem recebido, talvez por ir recomendado pelo Sr. Cônsul...
  A minha entrada em Benavente, foi trágico-cómica, porque nós éramos considerados "os americanos", mas era tudo malta muito nova e pronta a conviver.
  É desta entrada em Benavente, que me refiro no blog, em "E me convidaram a tourear a cavalo", em Outubro de 2007.

 Mas eu não havia esquecido aquela roupa preta que minha mãe teimava em vestir e jurei a mim mesmo, que logo que tivesse algum dinheiro, lhe ofereceria um tecido de outra cor e, assim, procurei o melhor que o Pedro Vermelho, que tem uma loja de fazendas, possuía, em Benavente, e que me recomendou um tecido de cetim castanho, realmente bonito.
 De imediato saltei a Lisboa para ofertar aquele tecido à minha mãe que, talvez para me agradar, lá foi mandar fazer o vestido que lhe ficava lindamente. Que linda que ela ficava !

       Ela era mais ou menos assim bonita, como nesta foto.

  Sobre esta fisionomia muito suave, havia um olhos castanhos. Toda ela era romantismo para a música e o seu piano de cauda brilhava todo o dia.


    

Mas passado pouco tempo, eu venho a descobrir uma linda garota que me enfeitiçou desde o primeiro encontro !
 Eu estava desejoso de meter conversa com ela, mas só conhecia bem um rapaz, um pouco mais novo do que eu e se chamava Gualtar Santos, e lhe perguntei se ele conhecia aquela garota de casaco vermelho, ao que ele me respondeu que conhecia e muito bem.
  Assim lhe perguntei se ma poderia apresentar e marcou-se esse encontro para o dia seguinte, mas para meu espanto, ao chegar na hora certa, ao local, vejo o meu amigo abraçado à garota dos meus sonhos, na janela do rés-do-chão, e os dois com cara de gozo !
  Quando me viram tão aflito, ele adiantou: " Não te aflijas. Ela é minha irmã Alice Rosa"... Livra, que alivio !

  Ela era tão pobre como eu, mas de boas famílias, e dois anos mais velha do que eu, mas estava livre, embora tenha vindo a saber que tinha tido uma paixão antiga, mas nunca me disse porquê não a tinha usado para casamento... mas para mim, tanto melhor e queria lá saber dos antigamentes...
 Mas como éramos ambos pobres e eu nem tinha reservas, toda a sua família achou por bem ajudar ao nosso casamento e, passados 2 meses, estávamos casados e a morar numa velha casinha, no meio do campo, que os seus avós tinham conseguido arranjar, por dentro e por fora, em Vale de Estacas, e até pertencia aos que foram os meus padrinhos de casamento, Dr. Ferreira Lourenço, Presidente da Câmara e sua esposa, a D. Joaquina.
 
 
  
 



 
 
 

 

 
 
 


  Como ela estava ainda mais linda, vestida de noiva !
E, como não podia deixar de ser, lá estava minha mãe no seu vestido de cetim castanho, com um bonito chapéu, de abas largas, tão linda que mais parecia uma rainha e eu todo feliz.
 A partir dessa data, e enquanto viveu até aos 95 anos, nunca mais a vi vestida de preto.  


 
Escrito por Engenhocando em 20:47:43 | Link permanente | Comments (2) |

2008/05/01

QUE BOM CHEGAR A VELHINHO !!!!


   
  
Crónica Nº.86 de  Maio de 2008  de  http://engenhocando.blog.com

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  " QUE BOM CHEGAR A VELHINHO"


  Provavelmente, o leitor que chegar a este blog, ficará um tanto atónito com a expressão escolhida para esta crónica, pensando provavelmente, que a velhice deve ser uma grande chatice !
 Na realidade, se uma pessoa tiver levado uma vida sem nada para recordar, e se ainda por cima, não tiver já uma boa saúde, achará que a velhice, deve ser uma coisa muito chata, mas quando há muito para recordar e ainda interesse por viver, encontra muito de que falar...

 Na realidade, a velhice, quando cá se chega, como eu aos 81 anos, vem acompanhada de muitas surpresas, às vezes um tanto desagradáveis, certos abanos na saúde, a noção de que já faltam muitas coisas que se foram perdendo pelo caminho dos anos, mas enquanto se tem a noção de que numa longa vida, tem mesmo de existir muitos solavancos e nos temos de ir preparando para o passo final...pensa-se de forma diferente... 

 Alguém me poderia perguntar: "Qual é a melhor hora de cada um dos seus dias?", e eu poderia responder que é o acordar e uma pessoa sentir que ainda está viva e lúcida.
 Depois dum cigarrinho para ajudar a acordar completamente, dada a preocupação de não deixar cair nenhum morrão sobre a roupa, segue-se o ir fazer o pequeno almoço de sopas de café com leite, e vir comê-lo para a cama e logo seguido de outro cigarrinho...
 Muito confortavelmente instalado, agarra-se uma boa leitura por mais uma hora e se pára.
 Segue-se um período vazio de olhar o tecto branco e tudo o que nos rodeia,  e no silêncio total da falta de companhia, ficar a pensar no que se poderá fazer de agradável, para encher as horas do dia que acabou de nascer.

 Como o leitor deste blog já teve várias vezes, a oportunidade de ler, eu sempre me lembro de que tenho tido muitas ocupações diferentes e, se for alguma em que possa aprender qualquer coisa, ainda melhor.
 Eu costumo pensar que as únicas coisas que me crescem actualmente, são as unhas e o cabelo... o resto já se foi andando e desaparecendo, mas como tudo se vai lentamente, nem dá muito para se ficar preocupado, mas simplesmente com certa pena. Vão-se os dentes, o ouvido e a vista, com baixa imenso de sensibilidade, as pernas começam a ficar perras e em vez de se andar, damos que estamos mais a arrastar os pés e a tropeçar ao mais pequeno descuido, e se fica com a saudade do interesse sexual que tanto abundava uns anos antes, e se extingue.
 
 Se se envereda pela INTERNET, os amigos que se vão juntando e fazendo companhia diariamente, são um enorme aliciante, pois cada um nos vai dando noticias do que está a fazer ou a pensar fazer, os que necessitam dos nossos conhecimentos adquiridos durante tantos anos, e nos enviam imagens lindas de ver, de todos os tipos, de terras distantes e lindas de ver e conhecer, do aparecimento de instrumentos que todos os dias se estão a inventar e mulheres, lindas mulheres, daquelas que tem TUDO o que qualquer homem gosta de ver...enquanto os seus olhos ainda conseguem enxergar alguma coisa !

  Mas eu nasci com uma necessidade imensa de conversar com toda a gente, mais novos e mais velhos, ricos e pobres.
  Por esse motivo, em 1948, quando me apercebi de que a morte só me tinha passado ao perto, logo me entusiasmei pelas actividades radioamadoristicas que me abriam imensas portas científicas, e a ANACOM me forneceu o indicativo de CT1DT, que ainda hoje possuo e uso. 
 Assim, e embora ainda num sanatório, me fiz radio-amador e de lá das altas montanhas do Caramulo, consegui encontrar imensa gente da minha idade, 17 anos, e muitos, quase todos, mais velhos.  E, como os anos iam andando e eu a ver imensos amigos a morrer, ricos e pobres, mas em especial os bem comidos e bem bebidos, lembrei-me de fazer uma lista dos que se tinham ido, a que chamei de "Triste Lista", onde já inscrevi 375...
 Assim hoje, eu sou , dos poucos velhos amantes da rádio, que ainda existem em Portugal !

 E lá se vão encontrando aqueles velhos amigos de há mais de 60 anos, que também se meteram com a NET, e com quem estamos de conversa, horas e horas, recordando os tempos passados...as aventuras que tivemos, as empolgantes experiências de todos os tipos, os sustos e os fracassos que apanhámos e as alegrias que nos encheram a vida, as mulheres que nos acompanharam e em que algumas vimos morrer nos nossos braços.... E mais, a vermo-nos uns aos outros...via MSN em televisão.
 
 É uma pena que muitas pessoas que chegaram à idade avançada, não tenham a coragem de se meter na NET, pois ficam sem quase nada para fazer, todo o dia, só esperando pela hora da alimentação, um passeiozinho pela rua, se estiver bom tempo...umas horas a ver televisão, e umas sonecas à mistura...

 Felizmente que, e desde há muitos anos, me enviam mensalmente pedidos de mais artigos para publicar e isso me ajuda a estar sempre de atalaia, para encontrar os assuntos sobre o que escrever e juntar fotografias e esquemas, que, muitas vezes, têm de ser feitas sem perda de tempo, para quando chegarem os pedidos, já ter alguma coisa pronta a seguir. Entretanto já tenho publicadas, cerca de 2000 páginas de assuntos técnicos, e por isso, muito diferentes destes que aqui escrevo.
  Eu devo ser considerado um tipo muito especial, talvez "maluco", dado que, se se for à NET e lá escrever  ct1dt  , em  QRZ.COM, vai-se ver que lá está a minha fotografia de há poucos anos e a indicação de quase 2000 visitas ao meu indicativo...e fico a pensar no porquê ...quando a maioria, anda pelas 200 ou menos...

  Quase todos os dias nos entram pelo casa dentro, no computador, anúncios das mais rocambolescas coisas, desde as comidas que fazem bem a tudo, as anedotas, aos comprimidos de Viagra que já não nos serviriam para nada,...há de tudo !
  Mas uma coisa é certa, desde há muitos anos, que me habituei a uma alimentação muito simples, como um prato de sopa de legumes e massa, um ovo estrelado ou em omeleta, um fruto, meio pãozinho, um pouco que queijo de barrar, e um copinho de sumo de laranja, é quanto basta, pois as sopas de café com leite da manhã e do lanche, bem docinhas, fazem o resto.
  Perde-se a vontade de andar a medir a tensão arterial e de andar sempre nos consultórios, quando já se sabe que as análises que foram feitas anualmente, se mantêm estáveis. Então, para quê ir fazer mais ?
  Claro que há muita gente que necessita de vigiar as diabetes, se as tem, mas quando se fez uma vida muito cuidadosa, regrada e simples na alimentação, não fica nada por onde se ter de cortar.
  Aprendemos que mais cedo ou mais tarde, todas as comidas muito condimentadas, acabam por vir a fazer mal, mais tarde. Então eu as eliminei...pura e simplesmente ! Nada de fritos, nem refogados, nem gelados, desde que vim a  saber que eram feitos de manteiga e leite... e andar a comer "manteiga" à colher, é mesmo um suicídio...

 Uma coisa aprendemos, é que os dentes postiços nunca mais funcionam como os de origem, e nunca mais se consegue trincar com dantes.  Se os dentes não conseguem desfazer uma carne um tanto rija, mais vale ir metê-la no triturador, 1,2,3, e comê-la logo moída, em vez de exigir que um estômago com mais de 80 anos, o consiga fazer convenientemente, à custa do seu corrosivo ácido clorídrico. Ou então, pura e simplesmente, eliminá-la da dieta.
  Porquê teimar em comidas que se digeriam bem aos 20 e aos 30 anos, mas que agora são um sacrifício tremendo para o estômago as digerir?

  Quando se vive completamente só, fica-se muito restringido na alimentação, a coisas muito simples, e estar o mínimo de tempo na cozinha, nem que seja por preguicite aguda...
  Mas uma coisa que parece tão simples de fazer para toda a gente, como partir um ovo para estrelar...até isso fica complicado, pois a maioria das vezes rebenta a gema e aquilo fica uma autêntica chachada !!
  Eu não me sinto como pessoa desajeitada, até porque me consigo entender dentro dum relógio de pulso e com os seus micro-parafusos, as micro-rodas dentadas, mas fico mesmo chateado quando, ao pretender fazer um bonito ovo estrelado, acabo por vê-lo rebentado na frigideira, embora se possa comer aquela mistela...
 Ná, aquilo tem de ter a sua técnica, pois uma coisa é partir um ovo para mexer ou fazer uma omeleta, e outra, fazer um estrelado...é muito diferente e eu tinha de aprender...
  Assim, peguei um, coloquei-o numa balança e com o gume duma faca, fui fazendo força, lentamente, e medindo a força.
  Verifiquei que a casca estalava aos 3,5 Kg, mas só ia dentro, aos 4 Kg...e sem rebentar com a gema...
  Bem, pensei eu, então o que tenho de fazer é várias pancadinhas à sua volta para facilitar que se abra, e assim lá me tenho safado... e podido comer, regalado, e molhado com bocadinhos de pão, a sua saborosa gema e a clara, levemente tostada à volta.
  Mas como é óbvio, vão-se fazendo disparates, quase todos os dias, e ainda hoje, fui fazer o café e me esqueci do próprio café ! Só tinha água quente !!!
  Noutra vez, foi ao contrário, coloquei o café e esqueci-me da água, que teimava em não subir... e ia acabando com a maquineta, que quase se ia derretendo !!! e café...nada !
  Ou ir fazer duas ou três compras e chegar ao super-mercado,  e já não saber o que ia comprar e outras, encontro as coisas e me esqueci do dinheiro...
  O que me vale, é que todo o mundo me conhece e vai perdoando, mas nem que seja um euro, eu tenho de o ir lá levar.  Não posso ficar  dever um tostão a ninguém... fico mesmo doente...
  Ou sair de casa com braguilha aberta... ou com os botões da camisa, trocados...
  Ou andar pela casa à procura duma coisa que já nem sei o que era...tendo de voltar atrás...

  As coisas de casa, como limpar e arrumar, é que me custa um pouco mais, em especial o ter de fazer a cama, dificilmente sabendo o lado da cabeça e o dos pés...ou se está direito ou do avesso...
  E passar a ferro uma data de roupa...

  O leitor poderia perguntar: e porque é que não vai comer fora ?
  Porque me custa muito o tempo de espera pela comida, pensando no que poderia estar a fazer em casa, com os meus brinquedos, responder ao correio electrónico, escrever um artiguinho como este, ou preparar um outro para publicação...

      E viva a velhice !!!! que é linda de viver ...e deixa-me ir embora, senão nunca mais acabo...e me ponho a contar como dei dois valentes trambolhões esta semana e de cabeça no chão...e como consegui acabar com umas dores de cabeça que não me deixavam dormir...talvez devido aos trambolhões, mas isso daria para outro artigo...
Escrito por Engenhocando em 15:02:44 | Link permanente | Comments (5) |

2008/03/15

E MEU IRMÃO ME SALVOU A VIDA...


    E não era médico mas cientista !
 Cronica nº. 85 de Março de 2008
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   Estava um calor de rachar, naquele dia de verão e era fim de semana.
   Agarrei a minha bicicleta e fui até uma praia a uns 10 Km de distância e por baixo de um toldo, ali fiquei a gozar a ligeira brisa que vinha do Rio Tejo, pela praia acima.
   A praia estava cheia de gente, mas acabei por adormecer, tendo acordado em sobressalto, pois entretanto o Sol tinha rodado, e eu estava de chapa ao quentíssimo Sol, talvez deitando fumo por todo o lado...
   Eu me sentia muito estranho e sem força alguma, mal me podendo por de pé !
   Mas que raio de coisa me teria acontecido !
   Na verdade, tendo de estar o nosso sangue a uma temperatura de uns 36.5ºC, com aquela exposição tanto tempo, ao Sol com mais de 45º, eu devia ter ficado cheio de febre, a 45º ou mais, durante imenso tempo.

   Como nem força tinha para me montar na bicicleta, resolvi vir para casa, num estado muito estranho de tremenda prostração, com a bicicleta à mão, desejoso de chegar a casa e me deitar.
   Mas o mal-estar aumentou e comecei a tossir, talvez indicando que me tivesse engripado, ou coisa pior!.

  Naquele tempo, todos éramos solteiros, os 5 irmãos, e vivíamos na Cova da Piedade, na margem direita do Rio Tejo, para estarmos mais próximos do Arsenal do Alfeite, onde tanto eu como meu irmão de 18 anos, trabalhávamos na Administração.
  Este meu irmão era um autêntico cientista-amador e já tinha levado a vida a fazer imensas coisas de relevo, embora sonhando em "voar" muito mais alto em tudo, o que veio a acontecer uns anos mais tarde, quando em Angola, construiu pedra a pedra, o seu famoso e fabuloso Observatório da Mulemba e tanto veio a colaborar com a NASA, quando dos lançamentos dos satélites.
  Pessoa muito mais robusta do que eu, levava uma vida muito desportiva com natação e tinha um pavor imenso de qualquer doença, pelo que sempre viveu longe dos médicos, porque segundo ele, eram "especialista" em inventar doenças complicadas nas pessoas...
 Dizia ele que vivendo saudavelmente e bem alimentado, ninguém, adoecia...

  No dia seguinte, eu me sentia completamente exausto, tremendo com varas verdes, como se estivesse um frio dos diabos... e pedi a uma das minhas irmãs, que me chamasse um médico, o que veio a acontecer passada umas horas e ele, depois de me ter auscultado, me disse que estava com uma valente gripe...e me receitou um xarope para a tosse, que não me largava...e mais qualquer coisa de que não me lembro...

  No fim do dia, meu irmão ao chegar a casa, e porque havia construído por suas mãos, um belo microscópio de aspecto profissional, e até tinha comprado uns livros sobre análises microscópicas, me pediu para cuspir numa pequena tacinha e depois de lhe ter feito algumas tintagens, colocou uma lamela no microscópio e vai de examinar as imagens que estava a ver, chegando à terrível conclusão, de que estava a ver o bacilo de kock...
  Nós dormíamos no mesmo quarto e, para termos mais espaço disponível, tínhamos um beliche e eu dormia do lado de cima.
  Ele estava de costas para mim, todo entusiasmado a comparar as imagens do microscópio com as do grande livro que tinha ali ao seu lado, quando me deu a terrível notícia !

  De imediato e sabendo da enorme possibilidade de contagiar os meus irmãos, com daquele bacilo da tuberculose, eu exigi às minhas irmãs, que separassem tudo o que me dizia respeito, incluindo roupas, pratos e talheres, e voltei a pedir que uma me voltasse a chamar o mesmo médico, que apareceu algum tempo depois, mas embora confirmasse a gripalhada, eu acrescentei que o meu irmão me tinha descoberto o bacilo de kock e desejava urgentemente uma análise profissional, para ficarmos mais descansados, ao que o médico acedeu um tanto contrafeito, achando que seria um disparate...mas o resultado foi confirmado: eu estava mesmo com uma tuberculose pulmonar ! Raios partam a minha vida !
  Meu irmão, que se chamava Carlos Mar Bettencourt Faria, devia estar em palvorosa com a sua descoberta, logo ele que tinha um pavor imenso de ter de viver perto de pessoas doentes...

 Era urgente que eu fosse retirado da companhia dos meus irmãos e transportado para um hospital, o que a minha mãe conseguiu, e lá vou eu bater com os costados num deles, lá para os lados da Praça do Chile, hospital muito antigo, para doenças infecto-contagiosas.

 Meu pai já tinha falecido há 5 anos, quando eu tinha 11 anos, também de tuberculose, e isso apavorou toda a minha família, mas nas radiografias então feitas, eu estava mesmo com uma infiltração no pulmão direito, e era urgente começar de imediato com o tratamento de pneumotórax, único meio conhecido, de tratamento para aquela doença, em que ar é empurrado por entre as duas pleuras, para comprimir o pulmão doente e mantê-lo o mais paralisado possível, mas aquilo doía que se fartava, o enfiar uma grossa agulha, da grossura dum páu de fósforo, lentamente, entre as costelas, a sangue frio, logo abaixo do sovaco e pior, aquilo era um tratamento para muitos meses...e várias vezes por semana...
  Quando meu pai soube de que tinha sido agarrado pela tuberculose, e sabendo do sofrimento daqueles tratamentos, preferiu morrer, a ter de o fazer, o que veio mesmo a acontecer e morreu aos 45 anos.
 
 Eu nem queria acreditar na minha pouca sorte, pois estava com somente 16 anos...

 
 Aquela compressão do pulmão, me dava uma falta de ar tremenda e mal conseguia respirar... Era como se um elefante tivesse posto um pé em cima do meu peito !

 Sobre essa minha estadia nesse hospital, eu fiz referência neste blog, em Fevereiro de 2007, em "Um açoriano abandonado em Lisboa", onde relato as enormes dificuldades de conseguir viver mal alimentado e com tão imensas dificuldades financeiras.
 Dessa primeira noite no hospital, fiz referência no artigo "atacado pelos ácaros", em 22 de Fevereiro de 2007.
 
 Na realidade, mal eu havia começado a adormecer, sou acordado por uma comichão diabólica em todo o corpo e, ao afastar a roupa que tinha por cima, logo deparei com centenas de percevejos que fugiram para todos os lados...
  Eu nem queria acreditar que num hospital, aquilo fosse possível existir, e se a minha cama estava infestada deles, todas as outras também deveriam de estar...
  
 No dia seguinte, na hora das visitas, minha mãe apareceu e eu lhe contei aquela historia dos percevejos, mas como estava na moda, naquele tempo, o DDT, ela me trouxe um frasquinho daquele pó e, na nova noite, eu espalhei à minha volta, sobre o lençol de baixo, uma pequena quantidade daquele insecticida e, graças a Deus, consegui dormir até de manhã, mas ao levantar a roupa, fui surpreendido por centenas de percevejos mortos... 
 
 Quando as empregadas vieram fazer as camas, ficaram de boca aberta, ao verem o meu lençol, e logo foram chamar pessoal médico para eles verem o que havia acontecido na minha cama, enquanto os doentes de todas as outras camas, estavam muito intrigados com tanto movimento à volta de mim, sem saberem do que se tratava...
 Aquilo deu um reboliço dos diabos no hospital, porque os percevejos se escondiam muito bem durante o dia, e ninguém sabia que aquilo fosse possível...

  Mas quando informei minha mãe do sofrimento que estava a ter com o tratamento pelo pneumotórax, ela logo me disse que iria ver o que se poderia fazer.
  Minha querida mãe, como ela deve ter sofrido ao saber-me assim tão doente...
  Ela nunca me contou o que teria feito ou quem tinha falado, mas o que é certo é que dois ou três dia depois, eu estava a ser enviado para a Serra do Caramulo, primeiro de ambulância e depois de comboio lá para a serra.
  Ela era muito forte e raramente lhe via lágrimas nos olhos, mas à sua despedida de mim, naquele comboio, ela não conteve as lágrimas e me foi dizendo para ter coragem, muita coragem e fé em Deus, porque me iria curar.
  Mas quando eu vi o tempo a passar e a nada melhorar, fui levado a pensar que aquelas lágrimas da minha mãe, seriam bem o seu estado de alma, ao despedir-se de mim, talvez para sempre...

   A viagem até decorreu bem e ao subir para a Serra do Caramulo, agora de camioneta, até a tosse deixou de me amargurar e quanto mais subia, melhor me sentia...
  Aquilo teria de ser muito diferente de tratamento, pensava eu, na minha santa ignorância, mas quando eu assisti a uns outros tratamentos iguais, a uns outros colegas de infortúnio, logo me apercebi de que não só as agulhas eram muito mais finas e ninguém se queixava, nem faziam caretas de sofrimento.
  Assim, quando chegou a minha vez, e eu era o mais novo daquela malta toda, até fiquei todo contente, pois o sofrimento era imensamente menor e se podia aguentar perfeitamente.
  O médico era um jovem bem disposto e ainda me lembro do seu nome completo: Sebastião Trajano da Costa Pinheiro e ao ver-me com tanta falta de ar, até abrandou o pneumotórax, pelo que assim já eu podia viver sem a preocupante falta de ar.

  E já no meu quarto do Sanatório Central, com tudo limpo e arejado, tudo era diferente, além de que a alimentação era bem outra.
  Mas infelizmente, as análises ao terrível bacilo de kock, é que não mostravam melhoras,